quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Órfão



Eurídice! Eurídice!
Me disseram que a noite é surda
Mas seu eco escuro, rastejando pelas cores-correntes
Das paredes descascadas, me agarra com dentes de ferro
Perseguição acelerada, palmo a palmo e palmo a palmo
Sufocante

Meu galope sôfrego não suporta
Tanto peso de orvalho e causas
O coração opresso comprime-se em gota de amora rubra
E meus ouvidos sorvem o hino solene

Entrego tudo o que material
Meu físico, meu teto, minhas chaves
Meus vastos campos de silêncio e marfim
Vastos campos de ventos levantados,
Estou deixando só

Pássaro solitário em bando de mil grasnos
Sobrevoa oásis de desertos fosforescentes
Engolindo auroras e nuvens tingidas
Pelo frêmito de um vermelho
Afogado em lágrimas de tinto sangue ébrio

Acredito ser a noite sem sabor
Vagueando, rostos sem face, expressões caricatas de demônios astrais
Estrelas esfumaçando uma a uma
Apenas a lua pálida, coberta pela sutil mortalha
Dos céus
Perdidas notas de acordes indecifrados

Eu olho pra trás, é minha bênção
A tua sombra esvoaçando para os antros tenebrosos
Frente ao vidro incrédulo de meus olhos
Desperto gritando, à noite, suado, tenho sede,
Parece que algo me dilacera,
Meu destino dentro das minhas feras enjauladas
Instinto sacro, saprófago, necrófago, instinto fraco
Aprisionado nessa forma incorpórea nua
Fantasma lutuoso deslizando por entre sulcos de árvores ressecadas
As folhas caídas de outono
Meu corpo
Sacro, sacrifício, sacrificado em nome, em Nome de

Eurídice! Eurídice!
Que calor é esse nas faces?
Que lívido frescor é esse no seio?
Teu sangue em minhas mãos?
Tua boca em mim
O crânio descarnado do barqueiro me observa
É hora de ir, voltar para
Voltar pra onde? Eurídice?
É verdade que à noite ficamos todos cegos?
É verdade que você me ama?
Então por que essas notas tardes?
Então por que essas notas desnorteantes, transbordando de incandescentes?
Por que teu sangue em minhas mãos? Meu sangue... em tuas mãos...

É hora!
É hora de vos deixar a todos,
É necessário cantar um último canto
Antes que a luz da madrugada me ofusque e os galos levantem seu voo

Sobre as toneladas de chumbo que selam esta terra maldita