domingo, 3 de dezembro de 2017

Longos cílios



Há um rumor sussurro
Como gota desliza
Pelo sulco em suas costas

Contemplo duas íris, de que cor bordadas, não saberia dizer, pois são cores não parecidas com nenhuma que eu tenha visto antes, ou, talvez, nunca eu vi tão perto duas íris como eu vi essas que agora contemplo, na lembrança, um traço fugidio, minha vista se cruza e borra, prenúncio do limite lágrima na beira de meus cílios, suspensa como se não houvesse o lençol, o colchão, a cama, a laje fria, o concreto das paredes que são as paredes do mundo, sem limites e sem teto, para além da lâmpada pendurada que se apaga, é uma vela, um candelabro bruxuleante embalando e lançando sombras pelo espaço; o movimento delas e os meus cabelos que sobem e descem fundidos ao meu rosto ao meu corpo, delineados apenas os braços e a continuidade dos corpos, parece até que não existe chão, terra fofa debaixo de nossos pés, talvez areia molhada, cheiro de chuva, lá fora chove, não consigo ouvir o vibrar das cordas daquele violão tão distantemente próximo, mas ouço o vibrar das tuas cordas, e meus ouvidos estão preenchidos pelo som que percorre o espaço, névoa difusa, indistinguindo as formas, não há formas, apenas esboços, porque esqueci o mundo não foi criado ainda, é possível daqui a cinco ou dez minutos, mas o tempo não foi inventado ainda, e o que é um minuto eu te pergunto enquanto olho para a lua cheia por trás de nuvens que talvez anunciem chuva ou são apenas carregadas pelo vento porque aqui é muito quente e as gotas evaporam antes mesmo de chegarem ao chão; não há resposta ou eu apenas não prestei atenção o suficiente, me desculpe, sou distraído assim mesmo, não é por mal, às vezes eu olho demais para um ponto e imagino estar sonhando com esse ponto e no sonho dançamos, muito embora eu não saiba dançar e talvez seja impossível dançar com olhos, é preciso um corpo, dois corpos, sombras projetadas num fundo semiclaro, e é preciso música, alguma capaz de movimentar bocas, pronunciar quase-palavras, mas ainda não, ainda não chegou o momento, desmancham-se o teto, as paredes, a cama e o universo; apenas duas íris de uma cor que talvez seja verde, o verde inexistente em todos os outros verdes, o que eu vejo me olha de volta é um processo de ida e volta e proximidade;

Sobre a superfície das águas
Paira um pensamento
O reflexo divino