"Mas,
com os lábios secos, procurou um instante imitar por dentro de si as rosas. Não
era sequer difícil."
(A imitação da rosa - Clarice L.)
Oração.
Calar o coração baixinho. Apenas sussurros soprados debaixo das cobertas, os
olhos semicerrados, a boca trêmula, a respiração calma. Sentir o corpo fluir,
estanque. Comunicar. Rezar, se aquietar quase completamente, procurando na
escuridão sensorial alguma imagem definida, alguma lembrança talvez esquecida,
ou simplesmente deixando que as impressões cheguem, e não virem expressões,
calem fundo no coração, baixinho.
Enviar
uma carta, sem destinatário, ou com destinatário, mas sem resposta. Depois de
dias, depois de esperas, vigílias, velas. Uma carta numa garrafa, lançada ao
mar, sem endereço, ondeando, vagueando, bailando ao sabor do oceano, perdida, à
deriva, talvez livre, se liberdade significar a ausência total de
interlocutores, a pura mensagem, saída do desconhecido, indo para o
desconhecido. É como viver, ou rezar. Reza-vida, rezaviver. Cochichar para as
mãos coladas uma à outra e soltá-las como se solta um pássaro. Deixar que as
palavras, invisíveis e rarefeitas, esvoacem pelo ambiente como fumaça de velas
apagadas e desapareçam buscando o seu destino. Que é sem tempo.
Oração.
Sentar de pernas cruzadas, sentir o vento, a grama, aquele barulho de árvores
balançando, sonífero, quase inebriante, sentir que algo se move ainda que
estático. O sentido, a direção, uma bússola quebrada, girando sem parar,
procurando a sua casa, o seu laço magnético ou imaginário. Uma agulha
desnorteada, e olhos também desnorteados, andarilhos dos próprios pensamentos.
Já que tudo é silêncio. Mas o silêncio absoluto não existe, sempre aquele
barulho de ondas na praia, como os que as conchas guardam em seus ventres
vazios. O sentido de silêncio é comunicar, paradoxo verbal, coerente no plano
das coisas quase vivas, quase puras; comunicar através da língua, das palavras
que se perdem, mas se encontram, uma ao lado da outra, de mãos dadas,
caminhando pelo espaço, buscando se conectar a outras mãos em outro lado.
O
princípio do verbo, o verbo como princípio. O verbo sendo movimento, ação,
sutil, imperceptível, silencioso. O verbo então carne. Uma escritura na carne
se faz necessária e a oração ganha peso, reza-carne, reza-corpo, reza-, um
verbo sacrificado para o bem de outros movimentos, de outras comunicações.
Oração. Dança, sentir a areia entre os dedos, escorrendo, esguia, impossível de
ser capturada, pois não se presta às condições puramente materiais e humanas.
Areia-tempo. Dança de roda, rodopiar, rododançar na areia, expressando as
impressões, comunicando com o espaço, com quem queira ouvir, e ver.
Enviar
uma carta sem destinatário, falar sozinho, pensar, rezar. Tantos significados e
significantes, tantos símbolos e ícones. Tanto esforço, que vale a pena. Por
que não valeria? Se comunicar ainda que seja para si mesmo, pois o si é um
outro sempre, que se desejar, ver-se no espelho e entender a razão do reflexo.
A duplicidade, doppelgänger, o alterno. Alterno interno, alterno externo.
Desenhar com um sorriso a linha delgada dos lábios, enquanto os olhos tentam
enxergar aquele ponto escondido entre a escova de dentes e as lágrimas, ou
olheiras. Olhos que decantam.
Oração.
Caminhada, conversa, papo, mastigar. Com a mente focada, ou desfocada, em
movimento, foto borrada, borrão de sorriso, ou de dedos nos óculos, ou os
pontos de luz das gotas d’água nas lentes, a dança sutil das águas. Respirar.
Aprender a respirar. Se levantar, estudar cada movimento como se fosse o
primeiro. Mover-se em direção a. Não tem volta, não tem resposta, a ilha
permanece desabitada, com sua mensagem flutuando. O náufrago permanece com sua
sina de ter de ouvir-se sempre, é a única companhia que tem e terá, caminhando
consigo, com seu fardo, com seu fado, só.
Prever
a fumaça do cigarro, que direção toma, que caminhos percorre entre o ar e a
boca, entre o céu e a terra. Expelir tudo de uma vez, sopro de fumaça, sopro de
vida, sopro do vento no mar, mas ninguém vê. Ida e desvolta, só ida, só volta,
estrada de mão dupla, sem mão. Mandar mensagens SOS, socorro, mayday, alô, tem
alguém aí, e só receber aquele som sem palavras, sem vibrações, aquele som
chamado silêncio. Sentir a fria ironia do universo, que não ri, mas se diverte,
se fosse possível o universo se divertir, com tantas ligações não retornadas,
tantas chamadas não atendidas, tantas mensagens visualizadas, apenas aquela
suspensão de espera, o tempo ondulando como a fumaça do cigarro, como a vida
que se esvai, e ninguém vê. A areia livre, que escorre entre os dedos, sem ser
retida, uma única vez.
Colar
o ouvido à concha e ouvir. É só isso. Ouvir. Ouvir. Ouvir. Ouvir.
Oração,
rezar, pedir, agradecer, se comunicar, se comunicar com quem? Se comunicar, no
seu sentido mais amplo ou mais restrito, a comunicação sem comunicação, mas
ainda comunicação. Orar, corar, chorar, tão verbos e tão próximos. Sempre o
outro, mas sem o outro. A presença que se dá de outras formas. Rubor, lágrimas,
olhos fechados. Abraçar o vazio e sentir o grande espaço.
Oração.
Calar o coração baixinho, quieto, sussurrante, e acariciá-lo com delicadeza,
com leveza, com surpresa. É como amar.








