sexta-feira, 31 de julho de 2015

Correspondências


"Mas, com os lábios secos, procurou um instante imitar por dentro de si as rosas. Não era sequer difícil."
(A imitação da rosa - Clarice L.)

Oração. Calar o coração baixinho. Apenas sussurros soprados debaixo das cobertas, os olhos semicerrados, a boca trêmula, a respiração calma. Sentir o corpo fluir, estanque. Comunicar. Rezar, se aquietar quase completamente, procurando na escuridão sensorial alguma imagem definida, alguma lembrança talvez esquecida, ou simplesmente deixando que as impressões cheguem, e não virem expressões, calem fundo no coração, baixinho.
Enviar uma carta, sem destinatário, ou com destinatário, mas sem resposta. Depois de dias, depois de esperas, vigílias, velas. Uma carta numa garrafa, lançada ao mar, sem endereço, ondeando, vagueando, bailando ao sabor do oceano, perdida, à deriva, talvez livre, se liberdade significar a ausência total de interlocutores, a pura mensagem, saída do desconhecido, indo para o desconhecido. É como viver, ou rezar. Reza-vida, rezaviver. Cochichar para as mãos coladas uma à outra e soltá-las como se solta um pássaro. Deixar que as palavras, invisíveis e rarefeitas, esvoacem pelo ambiente como fumaça de velas apagadas e desapareçam buscando o seu destino. Que é sem tempo.
Oração. Sentar de pernas cruzadas, sentir o vento, a grama, aquele barulho de árvores balançando, sonífero, quase inebriante, sentir que algo se move ainda que estático. O sentido, a direção, uma bússola quebrada, girando sem parar, procurando a sua casa, o seu laço magnético ou imaginário. Uma agulha desnorteada, e olhos também desnorteados, andarilhos dos próprios pensamentos. Já que tudo é silêncio. Mas o silêncio absoluto não existe, sempre aquele barulho de ondas na praia, como os que as conchas guardam em seus ventres vazios. O sentido de silêncio é comunicar, paradoxo verbal, coerente no plano das coisas quase vivas, quase puras; comunicar através da língua, das palavras que se perdem, mas se encontram, uma ao lado da outra, de mãos dadas, caminhando pelo espaço, buscando se conectar a outras mãos em outro lado.
O princípio do verbo, o verbo como princípio. O verbo sendo movimento, ação, sutil, imperceptível, silencioso. O verbo então carne. Uma escritura na carne se faz necessária e a oração ganha peso, reza-carne, reza-corpo, reza-, um verbo sacrificado para o bem de outros movimentos, de outras comunicações. Oração. Dança, sentir a areia entre os dedos, escorrendo, esguia, impossível de ser capturada, pois não se presta às condições puramente materiais e humanas. Areia-tempo. Dança de roda, rodopiar, rododançar na areia, expressando as impressões, comunicando com o espaço, com quem queira ouvir, e ver.
Enviar uma carta sem destinatário, falar sozinho, pensar, rezar. Tantos significados e significantes, tantos símbolos e ícones. Tanto esforço, que vale a pena. Por que não valeria? Se comunicar ainda que seja para si mesmo, pois o si é um outro sempre, que se desejar, ver-se no espelho e entender a razão do reflexo. A duplicidade, doppelgänger, o alterno. Alterno interno, alterno externo. Desenhar com um sorriso a linha delgada dos lábios, enquanto os olhos tentam enxergar aquele ponto escondido entre a escova de dentes e as lágrimas, ou olheiras. Olhos que decantam.
Oração. Caminhada, conversa, papo, mastigar. Com a mente focada, ou desfocada, em movimento, foto borrada, borrão de sorriso, ou de dedos nos óculos, ou os pontos de luz das gotas d’água nas lentes, a dança sutil das águas. Respirar. Aprender a respirar. Se levantar, estudar cada movimento como se fosse o primeiro. Mover-se em direção a. Não tem volta, não tem resposta, a ilha permanece desabitada, com sua mensagem flutuando. O náufrago permanece com sua sina de ter de ouvir-se sempre, é a única companhia que tem e terá, caminhando consigo, com seu fardo, com seu fado, só.
Prever a fumaça do cigarro, que direção toma, que caminhos percorre entre o ar e a boca, entre o céu e a terra. Expelir tudo de uma vez, sopro de fumaça, sopro de vida, sopro do vento no mar, mas ninguém vê. Ida e desvolta, só ida, só volta, estrada de mão dupla, sem mão. Mandar mensagens SOS, socorro, mayday, alô, tem alguém aí, e só receber aquele som sem palavras, sem vibrações, aquele som chamado silêncio. Sentir a fria ironia do universo, que não ri, mas se diverte, se fosse possível o universo se divertir, com tantas ligações não retornadas, tantas chamadas não atendidas, tantas mensagens visualizadas, apenas aquela suspensão de espera, o tempo ondulando como a fumaça do cigarro, como a vida que se esvai, e ninguém vê. A areia livre, que escorre entre os dedos, sem ser retida, uma única vez.
Colar o ouvido à concha e ouvir. É só isso. Ouvir. Ouvir. Ouvir. Ouvir.
Oração, rezar, pedir, agradecer, se comunicar, se comunicar com quem? Se comunicar, no seu sentido mais amplo ou mais restrito, a comunicação sem comunicação, mas ainda comunicação. Orar, corar, chorar, tão verbos e tão próximos. Sempre o outro, mas sem o outro. A presença que se dá de outras formas. Rubor, lágrimas, olhos fechados. Abraçar o vazio e sentir o grande espaço.

Oração. Calar o coração baixinho, quieto, sussurrante, e acariciá-lo com delicadeza, com leveza, com surpresa. É como amar. 

domingo, 26 de julho de 2015

Sísifo


“O espelho só me ensina a ruína do desejo
Sei que é meu esse olhar onde eu não mais me vejo”
(Antônio Carlos Secchin)

Pela janela do ônibus eu vejo
Todas as versões melhores de mim mesmo
Da janela do ônibus eu olho aqueles olhos
Espelhos do vidro fosco e seco

Da janela do ônibus eu me vejo,
Este monstruário azedo que (me en)torno
À mostra o animal exótico em que me transformo
Exótico pelo inexorável vitral da janela, que me olha

[Do pó ao pó e do pó à porra]

Os ciclos revolucionários das rodas desfilam
Pela língua infinita das ruas asfaltadas
E os olhos dos bueiros que me observam
Mostram versões melhoradas de mim mesmo

[Da porra ao pó e do pó ao podre]

As forças me puxam e refletem ao redor o meu fracasso
Os pacientageiros conversam, mas não sobre mim
As máquinas bombeiam sangue radioativo para combustível
E os sons metálicos convergem sinfônicos, mas não sobre mim

As sobras dos meus restos eu recolho pelos lixos
Os fuzis apontam inglórias justiças

[Do podre à porra e da porra ao porre]

E as garrafas quebram uma a uma os meus brilhos
Dos meus olhos pretos e amaçados
Amarrados à janela do ônibus
E o meu indesejo que apita trinante
Desmorona de-graus abaixo para se unir

Às versões melhores de mim mesmo 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Asa Bailarina


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
(Motivo - Cecília Meireles)

Quando via o CD rodando dentro do rádio que a gente tinha há um tempo, não pensava em nada, mas gostava de ver. Era legal como ele girava e girava, tão rápido. Hoje não vejo mais os CD’s rodando, mas penso que são como bailarinas em alguma apresentação no teatro. Nunca vi, mas acho que sim.
Aliás, a palavra bailarina não me sugere rodopios no ar, nem giros, só uma delicadeza rítmica, um farfalhar de tecido quando a língua toca no céu da boca pra sair o L e o estridente “rina” que fecha o movimento, veloz e perfeito. Decidido. Baile, baila, bailarina. Caixinha de música e ela lá rodando, como uma baiana de escola de samba, com a mãozinha no alto, a outra na cintura os olhos fechados, rodando.
Peça que envolve o pavio de determinado tipo de lampião a querosene; camisa de incandescência. Bailarina incandescente. Brilhante. Bailarina fênix. Como o dicionário pode nos ensinar coisas! Do latim, baillare. Dançarina profissional. Dançar, dança. Se movimentar, no espaço, no tempo. Cruzar o ar com alguma pirueta fatal, impossível, e aterrissar como se fosse a coisa mais simples. Beleza, leveza. Os pés de uma bailarina. A graça, a vida, a delicadeza, ocultas por umas sapatilhas e meias. Os pés. A harmonia, a alegria, a tudo. Tuda. Bailar. Valsar.
A bailarina-cisne, a bailarina-cisne-negro, a bailarina-fênix, a bailarina que voa. Asa bailarina. Lamparina. Lâmpada-bailarina. Que ilumina. Que me ilumina. Bailar. Dar saltos e saltar sobre.
Um salto sobre o que você quiser. As pernas fraquejam? O público é ávido, como todos ávidos são os públicos, como todos públicos são os ávidos. Ávido à vida. Há vida debaixo da bailarina. Debaixo da saia que rodopia. Semideusa. Deusa. Ninfa de bosques que não existem. Ninfa de concreto. Bailarina do asfalto.
A bonequinha que gira na caixa de música, que guarda bijuterias. Mamãe é pobre, a caixinha também. A música é de Beethoven. Für Elise. A mesma música do carro do gás. Acho que é sim. A vida passa pelo carro do gás. E ele passa pelas nossas vidas. A menos que a gente use o gás encanado. Beethoven encanado. Ressoando pelas tubulações do Rio de Janeiro. Deixaria essa cidade feia um pouco mais bonita. Não porque é Beethoven, mas porque Beethoven é. E nem sei nada de música. Mas queria compor alguma pra alguma Elise. Ficam só o desejo e a vontade, e Beethoven. Ainda bem que ele compôs essa, porque se dependesse de mim... tão mais fácil usar a beleza de outra obra pra aumentar a sua própria.
Bailarinas no céu, nos morros, nas casas, deixaria essa cidade feia um pouco mais bonita. Asas de bailarinas. Foram-lhes concedidas por Deus. Assim como aos anjos. Mas anjos só tocam nas liras e protegem as pessoas. Bailaliras.
Bailarimas. Poesia é rima, mas poesia também pode ser outra coisa. Não sou o dono da verdade, e por isso posso roubá-la. Só às vezes. Bailaretas. Poetas bailando no mar. Mas a vida nem é isso.
A vida tá tão cheia de pontos finais que acho melhor só usar vírgulas daqui por diante, porque vírgulas unem, apesar de parecer que separam, elas unem na verdade, são como cimento, mas agem melhor do que cimento, porque cimento é concreto e pode pesar, mas as vírgulas quase não pesam, são uma coisinha assim e, pronto, já foram, já são, vírgulas,
Brincadeira, não sei se a vida tá cheia de pontos finais, falo assim por falar, mas não sei, bailabrinca na vida, bailobrinco com a vida; vai lá brincar com a vida; Vai lá bailar, bailarina; dance não porque mandaram, mas porque você pode, dançar é revolução,
Assim como revolução também tem sentido de girar, rodopiar; retorno periódico de um corpo astral a um ponto da própria órbita; volta completa, giro, rotação, e foi o dicionário que disse, diz-cionário; rodar como roda a baiana, como roda o palito na máquina de fazer algodão doce, como rodam os furacões, como rodam os girassóis;

Revoluciona, bailarina, bailalivre

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Teto de espuma


Teto de madeira,
Teto de espuma,

Teto de carne,
Teto de ar,

Teto de concreto,
Teto de telha,

Teto de céu,
Lua, estrelas, sol, nuvens,

Subteto,
Subterrâneo,

Teto de terra,
Teto de mármore,

Teto de teto,
Dentro do ventre,

Teto inventado,
Vento de perto,

Meu teto,
Batimento cardíaco,

Desabamento,
Queda do teto,

Tectônico,
Teto enterrado,
Feto,
Fato,

Sem foto,
Sem furto,

Sem festa,
Sem fato,

Sem feto,
Sem-teto,

Teto de espuma,
Teto de madeira,

Teto de terra,

Teto de carne,

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Realidades forasteiras

http://imguol.com/c/bol/fotos/2015/01/30/30jan2015---apaixonado-pela-exploracao-de-lugares-antigos-christian-richter-cresceu-na-alemanha-oriental-depois-da-reunificacao-do-pais-ele-visitava-predios-desocupados-locais-mas-nao-registrava-1422622452752_880x584.jpg


*Sugestão: Ler esse texto ao som de Comptine d’um autre été, de Yann Tiersen, até porque foi ouvindo essa música que o escrevi.

Quem acha doce a terra natal ainda é um tenro principiante;
aquele para quem toda a terra é natal já é forte;
mas é perfeito aquele para quem o mundo inteiro é um lugar estrangeiro.
A alma tenra fixou seu amor num único ponto do mundo;
a pessoa forte estendeu seu amor a todos os lugares;
o homem perfeito extinguiu o seu.
Hugo de St. Victor, monge saxão do século XII, citado por Edward Said (em O outro pé da sereia, de Mia Couto) 

Existe em mim uma certa nostalgia de viver, um certo desejo de passado, não o meu, mas outro. De outros, um passado que não conheci, não testemunhei. É como se eu buscasse resgatar alguma coisa, algum tempo, que não sei.
Um movimento não percebido, sutil, uma sugestão de olhar, de boca, um pensamento qualquer. Sinto falta de contar. Por isso reconto para mim o meu passado e o transformo. Se torna alheio, algum não-meu passado, um presente. Mas, talvez, temo por isso, esse passado seja inexistente e, portanto, futuro. Na solidão, contar para si é o mesmo que ser dois. Se recontar é o mesmo que não contar, mas imaginar.
Cores, formas, sensações. A memória retém sensações. Tempos que deixei pra trás sem vivê-los, sem vê-los, como novelos nunca tocados, escondidos, subterrâneos, subvividos. Viver no infra. Não é o mesmo que viver no inferno. Nem não viver. Assim, viver;
Nostalgia: 1. Melancolia profunda causada pelo afastamento da terra natal; 5. Estado de tristeza sem causa aparente. Será que são tão distantes assim, dicionário? Onde fica a minha terra natal? Onde fica a minha terra? Há terra? A terra é longe e sentir sua falta não é uma causa para a melancolia profunda.
A terra é longe. Entre mim e a terra existem umas quantas saudades. Só posso contar uma vida de perto e sem lacunas, mas pensamentos. Sorrir, é uma palavra-chave, mas não serve como palavra, nem como memória.
Não, não preciso contar. Fica a nostalgia. A sobra e o resto de açúcar no fundo da xícara, depois do café. É para onde olho e o que me olha de volta parece estar em outro lugar. Viver, às vezes, parece ser um estar em outro lugar. É o movimento. A vinda, a vida, só de ida, não dá. A volta soa como uma corrente que solta e ecoa, para ceder espaço ao som. Preencher as falhas numa história sem falhas, o sentido de contar. Nostalgia de viver, de passado, de futuro, de agarrar com força e não largar por dois minutos ou mais.
O abraço. Só serve quando há vontade em ambas as partes. Na solidão, o abraço são só braços apertados, quentes e pela metade. Quentes porque ardem, não aquecem. Abraçar o vazio é quase o mesmo que contar. Mas só podemos contar algo pra outro. Aí surge o novo. Para ser contado no futuro e recontado, reinventado. Podemos nos autoabraçar e fingir que está tudo bem. É uma possibilidade. Mas fica a nostalgia.
Nostalgia parece nome de remédio, embora não cure. Talvez cure. Talvez ninguém receite por ser um remédio sem gosto, sem graça, sem nada, porque é falta. Nostalgia é o oposto de arritmia. E diferente de melancolia. Parente da saudade e inimiga do esquecimento. É como aquela onda que não passa dos joelhos, mas te empurra um pouquinho pra trás. De leve, e você sente a espuma nos pés e tenta pegá-la, mas quando vê, já foi.
Já foi, já fomos espuma. Já fomos bolhas, já fomos brilho de mar e sol. Agora é areia molhada. Apenas o vestígio, alguma alga. A nostalgia é como um véu de espumas, que vem e escapa, escorre. E a nostalgia de viver? E a incerta nostalgia de viver? Só os mortos sentem, mas os mortos não podem sentir, são proibidos. Nostalgia de viver é paradoxo. Assim como ausência de terra natal. Terra fatal. A terra que come e não devolve, pelo menos não inteiramente. A terra encharcada de sangue e lágrimas e papel amassado. A terra que recebe inocentes e culpados, mais inocentes que culpados.
Não posso chorar, do mesmo modo que os mortos não podem sentir. Chorar só serve enquanto comunicação de algo e na solidão a única comunicação possível é com o seu outro. Se dividir em dois, três, pra não ser apenas mais um. É como rezar.
Fechar os olhos e tentar ver o espaço. É noite. A lua, as estrelas, os planetas, o espaço. É tentar ver o espaço. O ar, a poeira, a neblina. Suspender de repente a respiração e ficar assim por um minuto. Depois soltar aos poucos e sentir o pulmão esvaziando, o corpo esvaziando, mas tomar cuidado para que ele não esvazie todo, senão fica difícil encher e acabam entrando coisas que não deveriam, como pedaços de palavras, pedaços de gritos, pedaços de alguma coisa sem memória. Uma lembrancinha de cartão postal. Carregar consigo um medo de largar o vício.
Se manter sempre na corda entre o início e o precipício. Como um palhaço segurando um guarda-chuva, mas sem a chuva, apenas a lona-balão do circo. A lona-luz-balão de um circo voador. Inflado por cantos, risadas e respirações. Nostalgia de algo que não existe, de algo apenas em palavras, preso nas curvas de um S. É como rezar.

Parece fácil, mas é difícil, um belo dia você vai ter que aprender. Ter, precisar, necessitar. Você tem que. Tenho que? Tem que. Então vou que. Fazer o quê, é a vida. As coisas pendem de um grande relógio que derrete aos poucos, como naquela pintura do Dalí. Mas eu não conheço o Dalí, só finjo que. Nostalgia de aprender, por curiosidade. Saudade de uma época quando não conhecia nada. Tinha a vontade. Um desejo de. Conhecer, um milagre, talvez o único milagre. Inexplicável, inenarrável, ridículo (no limiar entre o segundo e o terceiro sentidos do dicionário). Tipo quando você chega ao final de um livro muito bom e quer apagar tudo da mente apenas pra ler de novo e se encantar. Como se fosse a primeira vez. A primeira vez a gente nunca esquece. Esquece sim. Mas fica a nostalgia. E nem sei mais em qual sentido do dicionário estou usando essa palavra. É como rezar. 

terça-feira, 14 de julho de 2015

Olhos de gato



Órbitas que podem ocultar galáxias
Na mole textura de ouro derretido
Revelam pouco a pouco o parentesco
Com seres de um mundo já esquecido.

São fendas de abismos grotescos
Engolindo feito buracos negros
A sombra de qualquer vertigem.
Em um universo composto de espectros

Desvela o véu de noiva da origem.
Ouve-se o surdo gemido de animal
A ecoar pelos corredores abandonados
No tempo de uma memória ancestral.

Ouvem-se dos cadáveres os sussurros gritados
Na fúria envolta de lágrimas e artérias
Rompidas nas batalhas do destino
A absorver toda a chama da matéria.

E me vê com sombrio ar felino
Como num espelho só de vento
Que resiste à força monstruosa
E infindável do pensamento.

E perscruta minha figura silenciosa
E eu me vejo em seus olhares
A refletir os passados rituais
De egípcios fantasmas milenares

E nos encontramos nas noites siderais
E nascemos juntos no mistério
Que envolve toda morte e toda a vida
Na linha tênue do espaço etéreo.

E morremos juntos na ferida
Que atravessa a alma lentamente
Teremos mesmo fim patético
Na metempsicose. Frente a frente.  

sábado, 11 de julho de 2015

Orvalhos transeuntes



Um olhar de sonho. Devaneios meio vaporosos. Bruma leitosa, condensada e etérea, lampejante, mas escura, muito escura. Pingos de tinta mais ou menos uniformes no meio de telas em branco, salpicadas por vieses rubros. Pingos de tinta escura, tão negra e lustrosa. Mancham tudo o que tocam irreparavelmente. São fixos, fluxos, fluidos arbitrários flutuando em bolhas d’água prestes a romper.
Dois olhos sonolentos, cercados por delgadas rugas arroxeadas, semicerrados, pulsantes de vermelhos. Doem, o mero piscar dói. Tudo dói e a vista é embaçada. Precisa das suas lentes para se focar em algo, abstrata e concretamente. As coisas ficam tão difusas quando não está com os seus óculos! Precisa apertar os olhos pra diferenciar os rostos. Aperta tanto que quase os fecha. Lacrimeja e as gotinhas rolam pelas bochechas acidentadas de erupções cutâneas até fazerem a volta da face e se desprenderem rapidamente. Não sei se chegam ao chão. Não sabe se estão acordados ou adormecidos. Tenta arregalá-los mas isso não funciona, a dúvida permanece. E, principalmente, o peso daquele olhar continua aumentando. Hipnótico. Perseguidor. Violento.
Dois olhos fechados, dormindo, sonhando. Tentando sonhar um mundo onde eles enxerguem um pouco além. Só um pouquinho. O suficiente pra ver se há uma esperança, uma nova perspectiva. É muito o esforço e talvez eles não consigam. Contraem-se, apertam-se e abrem-se. Veem o mesmo plano, a mesma realidade. Não é uma surpresa. Mas a sua mente vê outra coisa, ela vê aquele olhar de antes, fixo, fixado nas imagens, recordações recortadas e entrecortadas com memórias desconhecidas. Seria possível ela enxergar outra coisa? Sim, perfeitamente, e aí está o componente trágico, o elemento masoquista. De tantas coisas a serem vistas e pensadas, logo essa. Não é uma surpresa, infelizmente, mas também seria infeliz se fosse.
Sentem-se abafados, presos, e se libertam dos cobertores, aspirando sofregamente o ar da manhã, o ar sufocante, tóxico, mortal. E os olhos permanecem lá, eternos, etéreos, feéricos. Entre as sombras, sugerindo apenas. Pingos de tinta negros transbordando e crescendo. Inchados de não sei o quê. Não estouram, o que é mais assombroso.
Mas o dia está apenas começando, e com ele uma promessa de vida ou morte. Aonde quer que eu vá, levo você no olhar. Seria possível agir de tal maneira que qualquer um reconheceria o olhar de outro no seu próprio olhar? A sombra de um olhar além, aquém, através. O vestígio, o rumor, o rubor, as delineações.
Procura um espelho onde se ancorar e só encontra os fragmentos de uma vida perturbada. Não com a acepção puramente psicológica da palavra, mas com uma sutil, nem sempre lembrada. Quando uma pedra cai em um lago parado, as ondas formadas são perturbações na água. Quando o som sai da boca ele provoca perturbações invisíveis no ar. Perturbação como movimento, quebra de silêncio, de quietude. Duas pedras em dois lagos mortos, cansados. Perturbação. É o espelho, ofuscante, pelo brilho da manhã, pela enxurrada de uma vida sem dono, anárquica, que invade cada mínimo espaço e o obriga a viver. Não quer se ver no espelho, o mesmo rosto batido de dezenove anos. A mesma falta de, a mesma desilusão. Levar no olhar.
Carregar o sonho na vigília não é tão difícil. Basta piscar. Olhos como janelas da alma. Que alma buscar lá dentro? Existe um dentro? Não seriam os olhos a própria alma? Não. Simples assim e as coisas continuam caminhando. E os pés continuam se movendo em direção a. A vida continua vivendo. Por que a vida deve ser vivida e não viver? Quem vive a vida? Quem sonha a vida.
Sonhar acordado é o mesmo que acordar sonhado. Mentira. Talvez. A mentira do sonho pode ser a verdade da vigília. Mas tem a memória. Um vidro trincado que não deixa passar tudo limpidamente. Não sabemos a verdade do sonho. Eu não sei a verdade do sonho. Só os olhos. Porque é isso que importa, não é? Me diga que importa e eu vou acreditar. Sempre acredito. Quando era criança acreditava em tudo o que me diziam: chupa-cabras, aliens, fantasmas, bruxas, super-heróis, ninjas, quadrinhos, desenhos, deus, ciência, vida, morte. Bastava alguém dizer “é verdade” e eu acreditava. “Eu posso voar”, “eu tenho vinte mil brinquedos”, “no centro da terra tem dinossauros”, “dragões habitavam a região onde hoje é a China”.
Até hoje acredito. Nos dragões, nos aliens, nos dinossauros, na conspiração reptiliana, na farsa do 11 de setembro, no fim do mundo. E principalmente, nos sonhos. Os que me transportam e me fazem ver novamente, sentir novamente aquele calor. Não o físico, talvez o físico, mas um calor espiritual, na falta de termo melhor. Não sei alemão. O calor dos sonhos. Aqueles de padaria e os que a gente tem quando dorme. Aqueles que temos quando pensamos no futuro. Aqueles que inventamos para impressionar alguém. “Hoje eu sonhei que você batia de carro!”, “Quero ser engenheiro genético pra poder virar o Hulk”, “Sonhei que ficávamos deitados na grama, nos olhando, mas nunca te disse isso porque ia parecer que eu estava apaixonado por você.”
Um olhar de sonho. Olhares que se cruzam e vidas que passam pelos olhos. Reflexos em espelhos. Reflexões e refrações dos óculos. A vida é sonho, já dizia uma peça barroca. Viver é representar. Olhar é sonhar. Eu amo o verbo ser, em sua forma na terceira pessoa do singular do presente do indicativo. É. Isso é aquilo, e pronto. Olhar é sonhar. Eu sou tua e tu és meu, e nós é um (Uma aprendizagem...). Sonhar é olhar. E se perguntam como é o sonho dos cegos. Nunca perguntei para um, mas espero que eles não digam a ninguém. É só deles. Olhar não é ver. E eles sabem disso. Que levem para o túmulo! Não merecemos conhecer tal segredo.
Fecho os olhos e o que eu vejo são olhos me olhando. Não de verdade, mas não importa, pois é o que eu quero ver. É com o que eu quero sonhar. É o que eu quero levar para a vida. Esse olhar. É o que me tira da cama todo santo dia, e me faz sorrir sem motivo, assim de repente, como um olhar de surpresa. Basta fechar os olhos, basta piscar. Deixar que a vida viva.
Olhos apertados, cercados por olheiras delgadas, olhos míopes e enfraquecidos. Que doem, que latejam, que ardem, ardem muito. Só precisam encontrar outros olhos, melhores, mais bonitos, mais felizes. E Saram.


quarta-feira, 8 de julho de 2015

Deucalião e Pirra




O calor dos teus braços
Eu procuro desesperado
As sombras dos destroços
Onde se alojaram.

O calor dos teus braços
Eu sigo em vão no escuro
Cambaleante e bêbado
A vista, o ouvido, o sabor surdo.

A superfície dos teus braços
Eu almejo enquanto afundo
Vendo o meu corpo afogado
Querer alcançar seus olhos turvos.

Me visto de movimento
Corro por cima das pedras
As brilhantes que você deixou
Para eu não me perder nas trevas.

No teu corpo está escrito
O receituário pro suicídio
E quero ver nas entrelinhas
O seu arsênico sorriso.

E no meu corpo está escrita
A carta dos assassinatos
Os crimes inconfessáveis
Que nos tornam culpados.

Nos passos da dança macabra
Onde nossos pés se confundem
Multiplicam-se minhas promessas
Pra que nossas almas não afundem.

Inútil esforço, eu sei, eu sei
Estamos marcados na fronte
Desde o princípio do amor e ódio
Irreconciliáveis laços perdidos no Monte.

No Monte das últimas preces
Ficam deixadas nossas orações
Pra que a esperança não morra
Em meio aos mares e trovões.

Quando me vejo novamente
Estamos enlaçados dançando
E meu coração já não reconheço
Onde está, em qual plano.

Entre nossas bocas há um vácuo
Assimétrico, violento, fatal
E assim é impossível o beijo
Que me salvará do juízo final.

Que me salvará da chuva
Não a ácida das velhas metrópoles
A serena que dá resfriado
curada com antigos xaropes.

O aspecto fugidio das palavras
Sebosas, oleosas e gordurosas
Escorre entre minhas duas mãos
E se espatifa em poça tóxica.

O declínio imprevisível da lua
Anuncia o sono da madrugada
E o despertar de nossos corpos
Para a infértil vida terráquea.

Cada estrela que morre
Conta dez milhões de sonhos findos
Se condensando lentamente
Como asas de anjos caindo.

Num solo estéril de beleza
Cresce apenas a flor do caos
Frágil e feia e desgraçada
Cercada somente de sonhos maus.

É nesse solo que nós morremos
Servimos de adubo à violência
O nosso único sangue rubro
Presentifica nossa ausência.

O nosso único sangue rubro
Pisado pela dança última
Encharca a terra do que foi vida
A nossa vida, tenra e bruta.

Os dois corpos esfacelados
Eviscerados, destroçados, obliterados
Somos nós, amantes desditosos
Duas massas de carne amontoada.

Vai se esvaindo pouco a pouco
Nas brasas do derradeiro verso
Que fixamos nesse mundo monstruoso
Buscando o consolo de um deixar-se eterno.

Fomos só carne, minha querida,
Suada, lavrada, retorcida, marcada
Com as letras do alfabeto antigo
Anterior a qualquer fala.

É isso o que somos, minha cara:
Relíquias feéricas de uma árvore ancestral
Os galhos tortos e sem frutos
A seiva seca, profana e mortal.

É isso o que seremos, meu anjo:
As constelações vigilantes do cosmo
Retornando ao espaço-não-tempo
E novamente nos unindo ao fogo.






quinta-feira, 2 de julho de 2015

Todas as linhas passam por aqui



Degrau. Degrau. Tropeço. Degrau. Desorientação. O som rangido-metálico da roleta e o clac final. Mão em direção ao bolso. Mão fora do bolso. Desorientação. Sentar.
Estou cansado. Me ajeito no banco como um vampiro se ajeita no caixão. Coloco a mochila em cima do peito e cruzo os braços sobre ela. Estico as pernas e fecho os olhos, não sem antes dar uma última olhada para a rua. O dia está nublado. Ótimo, sem sol batendo no rosto. Agora sim, fecho os olhos, que ficam meio trêmulos, como se quisessem abrir novamente, e sinto o motor trabalhando e o chacoalho comum do meu berço provisório. Não adormeço completamente, não consigo adormecer completamente. Meus olhos estão fechados, mas sinto os espectros humanos se moverem ao lado, as pessoas que sobem, as pessoas que descem, as pessoas que sentam, as que se levantam. Ouço as conversas paralelas, as reclamações e as respirações como um único pulmão respirando no ritmo no trânsito tóxico. Está nublado, mas o calor é sufocante, me sinto numa estufa. O suor escorre pela perna, gota a gota, debaixo do jeans, por cima da pele, fazendo seu caminho entre os pelos. Meus pés estão quentes e meus joelhos rangem, como se estivessem enferrujados, inutilizados.
Num lapso tudo se apaga e desperto num quase sobressalto. Devo ter andado alguns quilômetros só. Tiro os fones da mochila e coloco o celular pra tocar alguma coisa. Olho em volta e vejo que a razão para o meu calor pode estar na quantidade de passageiros. Muitos, mais do que deveria. Por isso a lentidão também. Vejo que os meus planos para o fim da tarde e noite serão frustrados novamente. Como foram ontem, e anteontem e antes de anteontem. Aumento o volume da música. O ônibus está chacoalhando absurdamente alto.
O celular adverte que ouvir música com volume muito alto pode prejudicar a audição. Não sei se rio da inusitada ironia. Provavelmente já estou surdo e só escuto ecos de lembranças. Até as músicas parecem memórias atualizadas. Talvez eu realmente quisesse estar surdo. A pessoa do meu lado é uma senhora de talvez quarenta anos com várias bolsas de mercado. Não é a mesma de meia hora atrás. Quantas pessoas já devem ter passado por mim durante apenas essa viagem? Quantas devem ter passado durante toda a minha vida enquanto passageiro de transporte público?
Estico as pernas e sinto os músculos quase se rompendo. Preciso voltar a me exercitar, senão vou ter varizes horríveis na velhice e mal vou conseguir andar. Tudo aqui é muito apertado. Tão apertado que nos fundimos num bloco de metal e carne, de couro e plástico, de borracha e diesel. Um conjunto de células perdidas vagando para um destino comum. Algumas ficam pelo caminho, outras entram no meio e sempre tem aquelas que vão até o fim.  Eu me sinto apertado. E não é só por causa da mulher ao meu lado, que é gorda, alta e com as sacolas ocupando quase todo o chão debaixo dos meus pés. É mais como se eu estivesse perdendo espaço, no meu próprio corpo. O corpo físico, esse corpo que tenho, sendo pressionado, imprensado, perdendo sua liberdade, seus movimentos. Não é um processo brusco, mas lento, gradual, a passos curtos, porém firmes, obstinados. E esse mesmo processo começa a se estender para a minha mente, uma mente cada vez mais reduzida, limitada, espremida.
Depois de dois anos pegando ônibus diariamente, cheguei à conclusão de que não há espaço para a poesia aqui, em qualquer transporte público. Não há espaço para qualquer tipo de pensamento aqui. Só há espaço para o torpor. A falta de sensibilidade. A falta de sentimento. Olho para as pessoas à minha volta e, salvo raras exceções, estão todos com o mesmo semblante. Não expressam tristeza, nem raiva, nem euforia. Não demonstram nenhum sentimento nomeável. É como se estivessem desligados, desconectados, alheios ao mundo externo. Agem por instinto, por um impulso não explicável por nenhuma das ciências naturais ou humanas. Mexem nos celulares, conversam com amigos, parentes, conhecidos, leem, dormem. Nada disso é feito da maneira como fazemos lá fora. Especialmente o sono.
O sono do ônibus não é parecido com nenhum outro tipo de sono. É aquele sono subcutâneo, subhumano, subsono. Não se dorme realmente no ônibus. Fecham-se os olhos, os sentidos se confundem e a mente deixa de registrar as memórias. Mas isso não é sono. Estou dopado, letárgico, lobotomizado. O asfalto, a janela, as formas se dissolvendo na velocidade, cada vez maior na estrada vazia, as pessoas que ficaram na pista, abandonadas pelo motorista que não pensa nos problemas alheios. Os xingamentos que vêm como bombas e se afastam como restos mastigados de vômito. O toque da cigarra, a tensão diante da possibilidade do motorista não parar no ponto desejado, as reclamações, a revolta contida, diluída no cansaço extenuante. Estou entorpecido, como se vivesse a mesma cena repetidamente, como se estivesse preso num ciclo como aquelas rodinhas para hamster. Como as rodas do ônibus. Girando e girando sem uma perspectiva de parar.
Agora sobe o camelô, vendendo as suas balas, os seus chocolates, os seus amendoins. Quando todo mundo se faz de surdo aos seus apelos comerciais, quando todo o seu marketing falha, fico tentado a comprar alguma coisa com ele, só para que as suas tentativas não sejam vãs. Mas não compro. Não sei por que, mas não compro. Simples assim. Penso mais em mim, meu egoísmo, minha mesquinhez se torna mais forte e não compro. Vejo ele descendo pela porta de trás, não abatido, não diminuído, mas disposto, resistente, invulnerável, pronto para mais um round em outro ônibus, com outras pessoas, outros eus que são tentados a comprar mas não fazem e olham para janela, se fingem cegos e surdos, simulam sono, distração, são insensíveis.
Chega um momento em que acabo comparando a atual viagem com todas as outras que fiz até agora. Algumas foram piores, outras foram melhores, talvez a minha memória romantize as melhores e as faça parecer quase etéreas. Mas sempre chego à conclusão de que todas são ruins e o fato de uma ser menos ruim que a outra não a torna boa. Não, não adianta me enganar, ser otimista e tentar ver pelo lado bom. Não adianta, porque a força contrária é visível, esmagadora, gruda na sua pele, te oprime, te rebaixa, te joga no chão e te espanca até você não aguentar mais. Essa força é como a gravidade, quase tão natural quanto ela, tão inescapável quanto ela.
Mas volto à questão: no ônibus há espaço para a poesia? Uma poesia sufocada, estrangulada, asfixiada. Talvez não haja espaço para uma poesia rígida, sólida, pétrea, uma poesia pesada, densa. Talvez a poesia feita no ônibus seja líquida, vaporosa, gasosa, inexistente. Talvez essa poesia, sendo não-poesia, antipoesia, seja a única que consegue sobreviver aqui, a única forma de vida a brotar aqui. Mas, como fazê-la? Como encontrá-la? Como procurá-la? Como saber que isso, essa coisa sem forma, sem nome, pode ser chamada de poesia? Se não o for, será o quê?
Sinto que estamos deslizando, derrapando sobre um asfalto de gelo, cada vez mais fino, cada vez mais arriscado. Todas as curvas oferecem uma ameaça real de morte, assim como as retas, os viadutos, as estradas, os outros veículos, tudo é decidido em segundos, centésimos, milésimos de segundos. Deus joga uma moeda para o alto e decide o meu destino. Cara eu vivo, coroa eu morro. Em todo segundo, em todo milésimo de milésimo de segundo, há uma moeda sendo lançada e a minha vida decidida. Por enquanto só tem dado cara, por dezenove anos seguidos, mas as chances estão contra mim, estão sempre contra mim, contra nós. Mas, se em cada mínima medida de tempo há uma moeda no ar, então ela jamais cai definitivamente, ou cai numa velocidade absurdamente grande, sendo arremessada logo em seguida. Não acho que seja esse o caso. Minha vida, o seu destino, está sempre no ar, sempre girando, sem saber pra qual lado vai cair. Esta é a indecisão. Mas no final sempre dá coroa.
Estamos derrapando em gelo fino, à deriva, desgovernados e descontrolados. Pode ser que a gente nunca bata em nada, assim como podemos nos chocar com um poste daqui a dois segundos. Tenho medo pela minha vida. Mas não posso parar de vivê-la nem um mísero segundo. Talvez isso tenha algo de poético e trágico. A poesia grávida da tragédia, ou melhor, da catástrofe. Não, nada a ver. Acho que delirei demais agora. Uma poesia que se esgueira pelas frestas e chega aos ouvidos desavisados e lhes sussurra mensagens de morte. Estes, por sua vez, carregam essas mensagens até suas casas e as espalham sem saber, como vetores de um vírus mortal, que permanece latente e assim será até o dia do Juízo, quando toda a poesia dormente em toda vida humana se revelará e nos dizimará a todos de uma só vez. Não, isso também não. Talvez eu tenha de lidar com o fato de que realmente não há poesia no ônibus, nem nada parecido. A mulher das sacolas já foi embora, um cara dormindo está do meu lado agora.
Olho bem para esse rosto adormecido, me parece bonito. Não da beleza que a gente está acostumado a não nomear, mas uma beleza que provém do cansaço. Ele está profundamente cansado, posso ver isso. Todos estamos. Todos os setenta e oito passageiros nesse coletivo que atravessa metade da cidade, carregando milhares de vidas completamente díspares e as amalgamando numa única feição, a do cansaço. Nossa base, nosso berço e nosso destino. Ele carrega consigo uma beleza intransferível e inviolável, assim como a mulher das sacolas e a estudante à minha frente e os garotos ouvindo funk no fundo e rindo. Somos tão diferentes que é impossível pensar em algo que nos seja comum. Isso é belo, com certeza. Mas não é poesia. Não pode sê-la.
É aqui onde eu salto. Degrau. Degrau. Sem tropeço. Degrau. Desorientação. Mas está lá o outro ônibus parado, o segundo que eu preciso pegar, e, daqui, me vejo correndo, torcendo para ele não arrancar sem mim.