segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

A chuva não vai durar pra sempre




And it's hard to hold a candle
In the cold November rain
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Or I'll just end up walkin'
In the cold November rain
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'Cause nothin' lasts forever
Even cold November rain


I

Deposita a xícara sobre a mesa
E percebe: a rua, coberta
De asfalto e de certeza,
Por nós anda, não o inverso.

Repara que o céu, as árvores, os postes
São rarefeitos e indiferentes,
Tudo sob o qual vela a morte
Carrega em si a força do que sente.

Com calma, assopre a fumaça
E veja o reflexo no brilho negro
Pouco importa o caminho que ela traça
Desconhecido é o ponto de seu termo.

Ao lado, a janela semiaberta
Deixa entrar o rumor seco de um dia
Como nuvem a pousar sobre a terra
Em meio à solidão do que se cria.

II

Com chuva abençoam-nos os deuses
Tanta bênção que as ruas enchem
Afogando as ruínas e os meses
No borbulhar cego das águas turvas.

Mas, irrelevante, prossegue caminhada
Úmido asfalto a guiar os passos
Procurando a canção que está calada
À espera do silêncio que vem, incauto.

Os versos que escrever na superfície
Líquida do café já morno
Serão como as palavras que não disse
Submersas pelo hesitar contínuo, a língua trava.

Desmancha-se a glória não divina
Desses mesmos velhos, ínvios deuses
Como o chão de pedra cristalina
Que projeta nos sonhos lúcidos da noite inquieta.  

III

Agora levanta. Além dos muros que te cercam
Há o eterno desejo de uma paisagem
Que ultrapasse o vidro compressor
Com força de um animal selvagem.

A roçar no mato silente que sussurra
Cada passo prossegue um devaneio
Comprime os punhos num gesto longo
Ao observar um ritmo tão alheio.

O calor do sol é o calor do seu sangue
Que pulsa frenético enquanto corre
Pelas vielas estreitas desse claustro
Antes que a xícara entorne.

As mãos são pedras que afundam
No limiar extremo da praia deserta
A verter palavras tortuosas e candentes
Através do seu corpo que desperta.

IV

Amor, não caíram ainda as cinzas das horas
E o mundo jaz sob a lua minguante.
Sabe que em teu peito ardente mora
Desejos felinos a pedir: cante!

Um cantar de galos que acorda a manhã
Enquanto a névoa espessa cobre as ruas
Tornando qualquer vontade vã
No ímpeto que anima as vozes tuas.

Sim, vozes, todas aquelas veiculadas
Pela força da tua expressão sincera
Unidas à tua voz flamejada
Pela qual toda a terra espera

Ouvir! Dando vida a tudo que te rodeia
Com os feitiços que só você conhece
Gravados no livro que folheia
Enquanto caminha sobre o chão que tece.

Amor, em meio aos distantes ruídos
Que anunciam o romper deste dia
Permita-me atentar dedos, olhos, ouvidos
Pois a sintaxe de sua pele é poesia.