domingo, 8 de novembro de 2015

Epílogo das árvores cortadas


Direcionar uma prece
O cálido encanto cristalino
das coisas novas
Um saber místico que precede
O caminho escolhido pela fumaça
De um cigarro
A quebra, a rachadura, a fenda
No que chamamos realidade
Ver pela fresta
Sentir a fresca brisa que vem
Me levar
Me conduzir por notas musicais
Assim, líquidas, quase frias
Escutar a vida
Colar o ouvido na parede e escutar
Por trás da porta
Subterrâneos pensamentos
Lençóis freáticos de palavras
Sensações palpáveis
O dobrar dos sinos
O sinal da cruz
A direção de uma prece
Colocar a mão na água e senti-la fluindo
Um impacto mudo
Um corpo em movimento
A aspereza e a maciez
O toque
E o tato, a pele,
Por entre os cabelos
Afagando
Um devaneio desnorteado, cego
Mergulhar nesse novo mundo de treva e incerteza
Prender a respiração na hora exata
É a prática
De sair de mim sempre que possível
minha alma vestida de corpo, sob medida
somos solúveis nas águas do tempo
deixamos como rastros o gosto do sal
sólidos, inertes, à deriva
patinando sobre gelo fino
derrapamos, desfiladeiro abaixo
tentativas e tentativas
colar de novo o ouvido, no peito
as batidas do coração
regulares, cotidianas, mas não está ali
nem na contração dos músculos
nem no sangue
nem nas glândulas
nem nas veias
nem nos nervos
está no próximo
na conexão instantânea
precisa
sem necessitar de força
é como se fosse natural
assim, assim
qualquer coisa de orvalho
e cheiro de café
qualquer coisa de suspiro
e cefalópodes
qualquer coisa de angelical
e declarações de amor
é afundar os pés na areia
da praia
e estabelecer contato
com todas as consciências do planeta
pegar o meu pequeno âmago de Deus
e colocá-lo em sintonia
com todos os âmagos do universo
é cósmico
psicodélico
sensorial
é todas-as-palavras-escorridas-
da-minha-boca-frouxa-trêmula-
quando-te-olho-vindo
é
gotas grossas de chuva caindo no rosto nu
encharcando sem molhar
as roupas grudadas ao corpo
exíguo corpo
amargo gosto
na língua seca
nas palavras que não saem
escapam à vontade da mente
rolam pela pele
e caem em poças de significados
pedaços de sentidos,
fragmentos de ideias
porções de pensamentos
um caldeirão fumegante
a vida liquefeita
e fosca, translúcida
refratando feixes de luzes
indomáveis
galopantes brilhos vítreos
sobre águas ferozes
cristalinos encantos de sereias
submersos silêncios de náufragos
sussurros macios de histórias mal contadas
sombras esvoaçantes em quadros obscuros
de terras revoltas
beijos sôfregos
afogados
afogados
afogados