domingo, 8 de novembro de 2015

Epílogo das árvores cortadas


Direcionar uma prece
O cálido encanto cristalino
das coisas novas
Um saber místico que precede
O caminho escolhido pela fumaça
De um cigarro
A quebra, a rachadura, a fenda
No que chamamos realidade
Ver pela fresta
Sentir a fresca brisa que vem
Me levar
Me conduzir por notas musicais
Assim, líquidas, quase frias
Escutar a vida
Colar o ouvido na parede e escutar
Por trás da porta
Subterrâneos pensamentos
Lençóis freáticos de palavras
Sensações palpáveis
O dobrar dos sinos
O sinal da cruz
A direção de uma prece
Colocar a mão na água e senti-la fluindo
Um impacto mudo
Um corpo em movimento
A aspereza e a maciez
O toque
E o tato, a pele,
Por entre os cabelos
Afagando
Um devaneio desnorteado, cego
Mergulhar nesse novo mundo de treva e incerteza
Prender a respiração na hora exata
É a prática
De sair de mim sempre que possível
minha alma vestida de corpo, sob medida
somos solúveis nas águas do tempo
deixamos como rastros o gosto do sal
sólidos, inertes, à deriva
patinando sobre gelo fino
derrapamos, desfiladeiro abaixo
tentativas e tentativas
colar de novo o ouvido, no peito
as batidas do coração
regulares, cotidianas, mas não está ali
nem na contração dos músculos
nem no sangue
nem nas glândulas
nem nas veias
nem nos nervos
está no próximo
na conexão instantânea
precisa
sem necessitar de força
é como se fosse natural
assim, assim
qualquer coisa de orvalho
e cheiro de café
qualquer coisa de suspiro
e cefalópodes
qualquer coisa de angelical
e declarações de amor
é afundar os pés na areia
da praia
e estabelecer contato
com todas as consciências do planeta
pegar o meu pequeno âmago de Deus
e colocá-lo em sintonia
com todos os âmagos do universo
é cósmico
psicodélico
sensorial
é todas-as-palavras-escorridas-
da-minha-boca-frouxa-trêmula-
quando-te-olho-vindo
é
gotas grossas de chuva caindo no rosto nu
encharcando sem molhar
as roupas grudadas ao corpo
exíguo corpo
amargo gosto
na língua seca
nas palavras que não saem
escapam à vontade da mente
rolam pela pele
e caem em poças de significados
pedaços de sentidos,
fragmentos de ideias
porções de pensamentos
um caldeirão fumegante
a vida liquefeita
e fosca, translúcida
refratando feixes de luzes
indomáveis
galopantes brilhos vítreos
sobre águas ferozes
cristalinos encantos de sereias
submersos silêncios de náufragos
sussurros macios de histórias mal contadas
sombras esvoaçantes em quadros obscuros
de terras revoltas
beijos sôfregos
afogados
afogados
afogados

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Verso aberto (II)



Aquele inefável instante em que toda a cadeia de pensamentos percorre lugares desconhecidos. Você sabe que ele não se repetirá, mas ainda tenta se convencer de que vai lembrar daqui a meia hora daqui a meia a uma a uma e meia e duas horas. Você tem certeza de que esse instante é único no mundo, mais único do que todos os demais instantes, é o instante, sem igual, sem semelhança, sem qualquer ligação com o mundo físico-etéreo das divindades terrestres, posto que esteja mergulhado nele, encharcado dele. É um ponto-instante, um suspiro-instante, um espirro-instante, algo assim qualquer coisa quase capturável pelos sentidos comuns dos seres humanos que habitam esta vaga terra, selvas de pensamentos nunca realizados, cortados sempre numa ainda-não-realização mas estava tão perto que fracassou que quebrou e se foi embora com as aves migratórias. Até porque essas aves são os únicos entes vivos capazes de cruzar as fronteiras entre dimensões de um mesmo plano. Aves-ventos do sul, do oeste, espaciais, siderais, ave-vento, ventanias sibilantes cantando valsas rasantes enquanto mergulham à pesca de algum alimento espírito-corpóreo. São elas, e mais ninguém, que fazem os seus cabelos esvoaçarem na praia, no descampado, e aquietam-no debaixo de uma árvore frondosa, fazendo-os cair suavemente sobre seus ombros, só pra que você, num rápido e preciso movimento de cabeça, jogue-os para trás, ou os coloque delicadamente atrás da orelha esquerda, revelando aquele brinco que você comprou há sete meses quando a gente fazia qualquer despropósito desimportante, e eu fico com a vontade de colocar uma flor ali, de laranjeira, de maracujá, alguma que seja fresca e clara, reluzente e simples, resistente e um pouco melancólica, pois sabe que murchará em breve, e é a efemeridade do momento que conta, que vale, que conta, que faz o meu ato de colocar a flor na sua orelha descoberta algo além do simples colocar a flor na sua orelha descoberta e se transforme no desabrochar de um sentimento mais-que-perfeito, pretérito antes do pretérito, criação antes da Criação, Deus antes de Deus, um sentimento preexistente, mas momentâneo, recuperado pela força de uma vontade, de duas vontades, as nossas duas vontades, de sangue, de vida, de força, de poesia, é claro que a poesia entra porque somos poetas refundadores eternos da poesia, guardiões das chamas sagradas que queimam em fósforos de dois reais ou menos. Cada e toda chama é sagrada e profana, fumaça e concreto, pesada e leve, futuro e pretérito. Convivendo em algum presente perdido entre os fios dos seus cabelos, porque no fundo eu ainda não saí deles, ainda não me livrei da cena em que eles esvoaçam pela força de uma brisa, um vento, uma ventania, uma canção, triste e alegre, cheia de vazios, corrente caudalosa e potente, um sopro.

 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Prólogo das árvores cortadas



Eu tenho poeira nos olhos e
Manchas de gordura nas lentes dos meus óculos
Lombadas de livros velhos
Páginas amareladas e espirros sucessivos
Mão esquerda bagunçando
Os cabelos sempre revolucionados
Pianos jovens compondo
Músicas improváveis para violinos
E os pastores ao longe
Naquele campo idílico que resolvi deixar
Porque a vida é mais do que vento e grama
Mais do que nuvens e chuva, semente e flor
Mais do que cercas de arame e suco de uva
Mais do que feno e gado, milho e café
A vida é mais do que nada
É só uma natureza morta qualquer
Quem dera fosse impressionista
Mas as catedrais imensas desabam
Dentro de mim, do meu corpo, esse outro
Não, não, não é um outro, são só os óculos embaçados mesmo
Fingir ver, mas deixar os olhos se afastarem e a visão duplicar
Fingir
Prazeres microcósmicos, pequeninos assim
Não há terra natal
Acho que já disse isso antes
Sem problema redizer
Mais do que a vida uma canção
Em orquestra, dentro de um navio naufragado
Ambientação perfeita, acústica perfeita, convidados perfeitos
Músicos perfeitos, feito uma canção
Que vai ser cantada a plenos pulmões
Pelos últimos habitantes de Atlântida
Queria uma dança a dois
Agora entendo Adão, embora ele seja meio babaca
Ou um babaca completo
Fazer o quê se acabo me identificando melhor com eles, os babacas
É um devaneio, mas poderia ser uma história
Contada por gerações enquanto a batata frita
Mas brincar de bola nunca mais foi o mesmo
Depois que eu resolvi manter os olhos abertos
E os óculos atentos, e lá vem bolada, já foi
Fechar os olhos é meio que andar num mundo desconhecido
O reino do imaginário, os domínios divinos
Não deixa de ser um Éden
É meio que mergulhar num abismo, que tem fim
E vai doer, muito

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Pra vala

                                                                                           * 
                                                                                          

O Rio de Janeiro continua lindo, continua limbo, lerdo, lívido, o Rio de Janeiro continua risco, continua sendo, lendo, vendo, à venda a lenda a tenda, atenta, atentado ao lindo, ao rindo, ao rico, ao findo. O Rio de Janeiro continua lixo. Alô alô Realengo, reavendo o real engenho, relativo, reativo, revisto, alô alô Bangu, Santíssimo, Jacarepaguá, alô Campo Grande, Tijuca, Penha, Irajá, alô copacabana, copabacana, copasacana, ipanema iracema no cinema da cinelândia, cracolândia na linha do trem, do Santa Cruz-Central, central do brasil, centauro, centavo, vinte centavos, quarenta centavos, é a passagem, é a miragem é a malandragem a paisagem o dedo de Deus e Ele por inteiro, o Corcorcorcorcovado, corcunda, velho gago, olhando pro céu, apontando pro teu braço, pro teu relógio, o relógio da Central, o relógio parado, atrasado, de quatro faces, olhando pro passado e querendo o futuro com medo do presente cada vez mais pão duro, incerto, deserto, deserto decerto de asfalto e carros, multidões de carros e buzinas e trânsitos vândalos quebrando o ponto de ônibus e sentindo o gosto de borracha a borracha da bala da bala a bala da borracha e o cheiro do gás o gás das lágrimas as cálidas e pálidas lágrimas da Candelária o pária da Glória a marina gente fina andando pelas calçadas o calçadão de pedras que sambam e dançam e cantam e desfilam no carnaval fatal sensual amoral verbal sinal o sinal de trânsito e a faixa de pedestres pessoas que atravessam as ruas pra lá pra cá em todo lugar e vai e vem e enchem as ruas de vida de suor de gritos e palavrões e violência e alegria e euforia tá chegando o carnaval tá chegando o natal tá chegando o feriado, feriadão São Sebastião São Jorge e Tiradentes dia do trabalhador-or-or dia do trabalho as lojas fecham os mercados abrem os carros saem pra Cabo Frio, pra Búzios, pra Rio das Ostras, pra Região dos Lagos pra Região Serrana pra copacopacabana pra praia e a areia cheia de sereias de areia de castelos de areia de corcovados e pães de açúcar de areia de lapas e maracanãs de areia de pessoas de areia a areia da praia o guarda sol e a cerveja gelada no isopor do camelô que anda por aí e também é trabalhador e a gostosa de biquíni de fio dental de canga e com samba no pé na tela da TV na hora da novela das nove a novela da zona sul a zona de quem tem sangue azul e é estrela de novela do Manoel Carlos e anda pelo Leblon e tem problema de som no fundo do ônibus com a molecada ouvindo um funk bom no volume mais altão e irritando o trabalhador que volta cansadão da labuta da luta da puta que o pariu e volta de trem e compra uma cerveja porque é filho de Deus e Ele é brasileiro é carioca e usa chinelo de dedo acorda cedo caminha no calçadão toma água de coco e joga futevôlei com o Romário nos domingos de folga porque também é filho de Deus e ser carioca é tudo de bom. Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, maraviscosa, maravigoza, Rio 40, 42, 45, Rio 50 graus, antessala do inferno, calor do mal, calor infernal, calor do carnaval, sambando na apoteose do caos, alô alô Rio de Janeiro, Copacabana princesinha, Rocinha putinha de gringo, safari do governo, UPP puliça pacificadora, puliça metralhadora, matadora, morredora, sofredora, puliça do Estado, do município, puliça que obedece a política de pé rapado, de pé sujo, de político prolixo, político sifilítico, político artístico, político popular, populista, coronel, sim senhor, eu mando aqui, sou ditador, derrubo casa, toco o terror, mato bandido, mato trabalhador, sou gente de bem, sim senhor, sou político, prefeito, deputado, vereador, sou governador, sim senhor, olha o meu terno o meu traje do inferno a minha mortalha o meu caixão olha a minha lápide e o mendigo que mija nela isso que é respeito sim senhor eu sou o manda-chuva eu faço e aconteço eu tiro vagabundo da rua eu jogo bomba na lua mermão sou carioca sou traficante e o dono da boca é meu funcionário vigário escriturário empresário sou chefão poderoso sou o poderoso chefão mando na cidade sou cafetão mermão sou o cara o tal o sinistro olha o tamanho do meu pau se quiser eu boto fogo na cidade eu queimo ônibus e jogo a culpa no manifestante no traficante no centro avante da Bolívia se quiser eu paro tudo dou uma de maluco e uso meus filhos de escudo eu sou pai de família pai de duas filhas e olha como eu sou bonzinho não tem porque me culpar eu só quero ajudar eu tô aqui pra melhorar e fazer o que dá e o que não dá eu sou vagabundo andando por esse Riomundo esse Rio de Janeiro, fevereiro e março, e mando um abraço pra Bangu 1, 2, 3, 4 e cinco mil pega a sua inveja e vai pra puta que pariu é assim que funciona vou pra Ipanema e pego uma onda volto pra casa de  busão mas não tem mais busão porque o prefeito o meu prefeito o senhor do mal tirou meu busão não quer me deixar ir pra praia não é um cuzão um cagalhão vou me espremer no metrô junto com o povo trabalhador aqui não tem Newton não todos os corpos ocupam o mesmo espaço e a física ficou de fora porque lerdou e não conseguiu entrar e já tô indo nessa minhoca de metal meus pés nem tocam o chão mas eu tô legal porque hoje tá um solzão bom pro futebol com a rapaziada depois aquela cerveja gelada no boteco do meu camarada. Meu parça fechamento que conheci ontem à tarde na pastelaria do china que na verdade é um japa com sotaque coreano, me xingando na língua dele mas me perguntando carne, queijo ou frango, é um cara maneiro, uma cara maneira, sou carioca, cara é cara e cara é cara, minha mana, meu mano, Seu Fulano topa qualquer parada, roda Cantagalo, sem um Vintém, no meio da Aliança na boca do Sapo, esporando um Cavalo de Aço na Baixa do Sapateiro, o goleiro do flamengo vem da várzea dali debaixo e agora vai pra Europa jogar no Barça, Málaga ou em Madrid e conhece Engenho Novo, Engenho de Dentro e madu Madu Madureira, o meu lugar, o meu luar na pedra da Gávea, no bosque da Barra na Quinta da Boa Vista em Benfica ou Bento Ribeiro, Oswaldo Cruz, Santa Cruz, Fiocruz, Mangueira ou Manguinhos, na Maré, Marechal Hermes e Deodoro, na Praça da Bandeira, São Cristóvão ou Quintino, berço do Galinho, o artilheiro, o cara, o dez, o cem, o mil, é mais uma batida na avenida Brasil, globocop na área, sobrevoando a estrada, vídeo direto da Baixada no RJTV primeira edição da hora do almoço, motorista na contramão, tava bebo, tava bebo não, tava chapado Chapadão dão dão Chapadown, dawn, chapatown, clown, tava sim e aqui é a é a lei, lei seca, lei soca, lei muriçoca, lei morta, mulher morta, pobre morta, é negra e tá morta, é negro morto, é lei torta, e agora as notícias do tempo vai fazer calor, hoje amanhã e depois vai passar Chico no teatro só pra nós dois, vai ter Flamengo e Vasco no Maraca, vai ter Copa, copacopacabana, vai ter Olimpíada, Olimpiada, vai ter BRT dando certo na TV e Rock in Rio com trabalho escravo, com lucro e garrafa d’água sem tampa vai ter consumo desenfreado no fim de ano vai ter desempregado fazendo planos pulando ondas no Réveillon e vendo os fogos pela televisão e bebendo champanhe baratão, soltando o 12 por 1 que só faz barulhão, vai ter abraço e adeus ano velho feliz ano novo e show da virada gravado em novembro e especial de natal da tevê globo, vai ter verão, verãozão, calorzão, vai ter batidão, carro de som, música alta e novinha descendo até o chão, vai ter babacão, mano sem noção, taradão, machistão, meu pau na tua mão, vai ter racista, passista, percussionista, bateria da escola de samba, vai ter bloco de rua e gente pra todo canto, carnavalização, vai ter gente maneira e gente ridícula, vai ter gente boa e gente maníaca, vai ter dengue, febre e água parada, e mais vinte mil coisas todas ao mesmo tempo em todo momento na cidade maravilhosa, maracilada.  

* Créditos da foto: http://extra.globo.com/noticias/rio/a-bela-suja-enseada-de-botafogo-espera-do-fim-do-jogo-de-empurra-do-poder-pubico-6311918.html

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Verso aberto (I)





"Nós somos um tênue pólen dos mundos..."
(Êxtase - Cecília Meireles)


Como escrever os olhos dela? Por que começar a partir deles? Talvez eu só consiga responder essa pergunta se voltar para dois dias antes da Criação. Entender, de alguma forma, que cada letra, uma após a outra, é um meio de realização, um ente vivo, com vontade própria, tentando se libertar para um mundo desconhecido, cheio de medo, mas disposto a isso, ao tudo, a encarar face a face o Absoluto, o precipício da realidade, a condenação inevitável. Para responder a cada simples pergunta proferida por bocas inocentes, é necessário regressar aos estágios primevos, quando o Nada ainda era alguma coisa palpável e comunicava algo além do próprio silêncio de frade. Testar os limites de cada verbo no infinitivo, arriscar, forçar caminhos por florestas sem cor. Reconstruir o mundo à imagem e semelhança de Deus, reconstruir Deus, o Criador, a alma da Vida-em-si, fazer o percurso sem destino, com as inúmeras probabilidades de queda e derrota e morte. É preciso sentir a morte e a vida pulsando em cada segundo, isolado, estancado, infinito espiralado, a concha que guarda um pedacinho da verdade secreta e inimaginável mas sensível à flor da pele. É um mar para o qual se olha, um mar-espelho, mar-reflexo de forças intangíveis, fluidas, plasma condensando as tendências de dissociação e assimilação, os movimentos que geram a matéria, a luz, e o seu inverso, o avesso das vendas vãs, o ventre sóbrio da mãe ébria, os teus olhos. Que ocultam e revelam ao mesmo tempo muitas mensagens, mas os mensageiros foram mortos e elas estão à deriva. Não sou o homem de tato, de sensibilidade poética para captá-las e transformá-las num elo. Meus elos estão quebrados, as correntes e os laços, um andarilho perdido sem cavalo, de vistas tristes e corpo cansado, pois já vivi mil anos e minhas costas principiam a curvar sob o peso das almas que carrego, que não querem sair de mim, que se alimentam do meu espírito, e me renovam e se renovam, e juntos criamos novos espaços, novas dimensões, interstícios de realidades forasteiras. Não, não sou eu que vou, à maneira romântica de ver a vida, decifrar as mensagens dos teus olhos, e assim vamos nos amar e casar e sermos felizes para sempre. Não faz sentido pensar nisso, pois você não quer ser decifrada, é algo além disso, algo diferente das acepções comuns de todas as palavras. Mensagem, código, decifração, isso não tem referente no que os teus olhos transmitem, é preciso criar significados concretos, sensíveis ao tato e ao paladar, experimentáveis nos planos do corpo. São pássaros esvoaçando em céus surrealistas, em celas naturalistas, em mares barrocos. Mares revoltos, pulsantes de vontade, criados e criadores, vivos, vívidos, nítidos, intrépidos borrões rápidos e sucessivos, ferozes, expansivos, tempestuosos, sobrenaturais, sobre-humanos. Isso, isso tudo, como dizer que são seus olhos, impressões e expressões, avalanches de nuvens, formas siderais, cósmicas, meu sentimento, meus sentimentos, coração disparado, corpo estático, corpo-balão, aço frágil, renascendo a todo momento, reinventando os sentidos, o ouvir, o tocar, o cheirar, o saborear, o ver, o falar, todas as palavras desmanchando em formas de algodão doce, iridescentes, evanescentes, espumas-sereias das ondas do mar, e então firmes, sólidas, pétreas, fortes, resistentes, a rocha basilar do fiat lux! Teus olhos, como escrevê-los se todas as metáforas se tornam piadas ridículas perto deles? Constelações? Sóis? Buracos negros? O que são, o que parecem? É ridículo, irrisório, sem sentido, mas eles são o nome do que desperta em mim sempre que os olho, me torno janela, espelho, pálida superfície das águas, qualquer coisa opaca-transparente que tente se aproximar o máximo possível deste verso aberto que são eles, os teus olhos. 

sábado, 10 de outubro de 2015

Migratório



Te dizer palavras
No idioma outro
Na língua dos anjos-caindo
Fingir poemas
Imaginar a ideia
De que sei escrever
De que as letras desse alfabeto fazem sentido
Um sentido além da pura interpretação de entes abstratos
Um sentido ele próprio transcendente.
Me precipitar. Me declarar quando não estou pronto, porque, afinal, nunca estarei. Contar coisas, anedotas, me ficcionar. Me tornar precipício, abismo literário, litevário, literarbitrário. Simular que gosto de você, você gosta de mim e tudo vai bem. Virtualizar uma realidade concreta demais. Não vou dizer sonhar porque isso é clichê e ficar falando que você é o meu sonho ou que eu sonho com nós dois juntos é ridículo. Até porque amores felizes não fazem literatura, e nós dois sabemos o que é mais importante aqui.
Sobreviver, essa é a lei. A cada dia, hora, minuto. Respirar e ter certeza de que você também está respirando, seja lá onde esteja. Pronunciar teu nome, cada sílaba, e repetir, só pra ter certeza. A boca que se abre, a língua que ondula, o final quase frouxo, com a última vogal escapando sorrateira. Como a vida. Sorrateira como a vida. Assim, inesperada, em cada esquina, ou talvez na próxima curva, ou na descida do ônibus. Onde se solta, se salta.
Burlar as regras desse jogo inventado
Trocar sinônimos por neologismos
Ininteligíveis. Esse é o ditado
As palavras de ferro
Na ordem do dia, nublado
Por nuvens de chumbo, infelizes
Garoando gotas melancólicas, feriado
De ruas desertas, alguns guarda-chuvas
Nós dois andando, molhados
Tentando caber no espaço pequeno
De uma sombrinha, mãos dadas.
E éramos felizes.
Porque só no passado
Se encontram as raízes
Das flores futuras. Fadado,
O presente no devir
Da queda dos anjos, alados.
Mentir, descobrir o significado secreto das coisas quase simples. Perceber o olhar enviesado, o desvio inevitável, o ponto longínquo, ou próximo, ao lado. O delírio cósmico fluxo de pensamentos não pedido, não desejado, chegando a conclusões provisórias, suspensas no entreato de um enunciado incompleto. Formas dançantes do vazio, a sucessão de balés sísmicos alheios ao mundo sonolento, acrobatas do circo na beira da Terra, atrás das muralhas de gelo que nos protegem da liberdade, comunicam códigos feéricos das línguas esquecidas. Resgatadas por nós, em nossa incansável tarefa de escavar os túneis abissais do sentimento que emerge numa troca de olhares. O emergir súbito, à procura de ar, sôfrego e mudo, sôfrego e surdo, sôfrego e tudo. Os pulmões inflando, inflando, o sangue correndo, escorrendo, fluindo o transporte dos gases, a troca dos gases, aquilo que chamamos respiração, e a sua suspensão voluntária, no meditar, flutuar no éter de uma reflexão intimista. O reflexo no espelho, sendo surpreso, pois vê outro que não si mesmo, mas ainda assim é ele próprio, o reflexo que reflete o desejo, o reflexo que carrega as cores de uma pintura expressionista, a cor, o ritmo, o respirar, a transmissão de Algo para Algo. Nomear, desnomear, renomear, buscar a subversão dos significados, a anarquia dos significados, a revolução do eu te amo.
O nosso alfabeto estelar
Artificial
Humano e divino
Carnal
Feliz e suicida
Infrarreal
Vívido e sóbrio
Fatal
Neurótico e viciado
Sexual
Delinquente e juvenil
Ancestral
Borbulhante e azedo
Neandertal
Sinal, o signo-representação-corpórea de substâncias transcendentes, superficiais, camadas de magma derrapante, impulsivo e explosivo, eruptivo, nuclear, atômico e astronômico, linguístico. Palavra-concreto, encarnando o que é/foi, possessão violenta, coisa-palavra, indissociável, indecidível, aleatória. A ideia do olhar, o meu sentimento, o eu, o sentir, o você, o te, agir, o mar, a-mar, o amar, o alfabeto, o Aleph, a correnteza de sensações à flor da pele, a emoção ainda sem nome, o que eu sinto, o que não consigo sentir, a minha entrega, total, ao sentir, sem esperar resposta, não posso, não quero, pois cada segundo, cada unidade de medida-tempo arbitrária, é um eterno precioso que não devo desperdiçar, frágil e poroso entre as minhas débeis mãos, é o que eu não sei a vida o dizer o não-dizer o expressar em gestos o teatro de gestos teatro de marionetes cegas a vida o mar o que eu penso e sinto e quero e acho e ajo e finalmente o não-fim o meu delírio e a minha vontade te dizer palavras antes que eu sufoque me asfixie e fique impossível, improvável, rebentar de vez essa represa que é o meu ser e fluir sem destino mas com objetivo: você.    

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Círculo quadrado


O corpo dentro do corpo
A alma que precede o sopro
A montanha que não tem topo
Do peso que cai ao baque morto.

Letes sem fim com três mil margens
Diáfanas luzes a produzir miragens
Bruma leitosa a transluzir imagens
De formas sem traços, apenas passagens.

Caminhar lento e compassado
De seu próprio ritmo vassalo
A deixar pegadas no chão aquático
A montar a carne, pedaço por pedaço.

Destino sereno de voz branda
Leve sobe ao céu e mais leve canta
Cada pio um uivo assoviado que amansa
As palpitações febris da pele que ama.

Olhar andarilho que vagueia
De alto a baixo, do solo ao céu permeia
O éter fresco da manhã clareia
As faces incólumes de lacrimosas sereias.

Areia macia de impacto surdo
Chama as ondas do mar absoluto
E com a espuma das águas turvas
Concebem a beleza inocente e pura.

O olhar dentro do olho
O coração-oceano vítreo e revolto
A alma a vestir-se só de corpo
a encontrar no próprio ser, um outro.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Correspondências


"Mas, com os lábios secos, procurou um instante imitar por dentro de si as rosas. Não era sequer difícil."
(A imitação da rosa - Clarice L.)

Oração. Calar o coração baixinho. Apenas sussurros soprados debaixo das cobertas, os olhos semicerrados, a boca trêmula, a respiração calma. Sentir o corpo fluir, estanque. Comunicar. Rezar, se aquietar quase completamente, procurando na escuridão sensorial alguma imagem definida, alguma lembrança talvez esquecida, ou simplesmente deixando que as impressões cheguem, e não virem expressões, calem fundo no coração, baixinho.
Enviar uma carta, sem destinatário, ou com destinatário, mas sem resposta. Depois de dias, depois de esperas, vigílias, velas. Uma carta numa garrafa, lançada ao mar, sem endereço, ondeando, vagueando, bailando ao sabor do oceano, perdida, à deriva, talvez livre, se liberdade significar a ausência total de interlocutores, a pura mensagem, saída do desconhecido, indo para o desconhecido. É como viver, ou rezar. Reza-vida, rezaviver. Cochichar para as mãos coladas uma à outra e soltá-las como se solta um pássaro. Deixar que as palavras, invisíveis e rarefeitas, esvoacem pelo ambiente como fumaça de velas apagadas e desapareçam buscando o seu destino. Que é sem tempo.
Oração. Sentar de pernas cruzadas, sentir o vento, a grama, aquele barulho de árvores balançando, sonífero, quase inebriante, sentir que algo se move ainda que estático. O sentido, a direção, uma bússola quebrada, girando sem parar, procurando a sua casa, o seu laço magnético ou imaginário. Uma agulha desnorteada, e olhos também desnorteados, andarilhos dos próprios pensamentos. Já que tudo é silêncio. Mas o silêncio absoluto não existe, sempre aquele barulho de ondas na praia, como os que as conchas guardam em seus ventres vazios. O sentido de silêncio é comunicar, paradoxo verbal, coerente no plano das coisas quase vivas, quase puras; comunicar através da língua, das palavras que se perdem, mas se encontram, uma ao lado da outra, de mãos dadas, caminhando pelo espaço, buscando se conectar a outras mãos em outro lado.
O princípio do verbo, o verbo como princípio. O verbo sendo movimento, ação, sutil, imperceptível, silencioso. O verbo então carne. Uma escritura na carne se faz necessária e a oração ganha peso, reza-carne, reza-corpo, reza-, um verbo sacrificado para o bem de outros movimentos, de outras comunicações. Oração. Dança, sentir a areia entre os dedos, escorrendo, esguia, impossível de ser capturada, pois não se presta às condições puramente materiais e humanas. Areia-tempo. Dança de roda, rodopiar, rododançar na areia, expressando as impressões, comunicando com o espaço, com quem queira ouvir, e ver.
Enviar uma carta sem destinatário, falar sozinho, pensar, rezar. Tantos significados e significantes, tantos símbolos e ícones. Tanto esforço, que vale a pena. Por que não valeria? Se comunicar ainda que seja para si mesmo, pois o si é um outro sempre, que se desejar, ver-se no espelho e entender a razão do reflexo. A duplicidade, doppelgänger, o alterno. Alterno interno, alterno externo. Desenhar com um sorriso a linha delgada dos lábios, enquanto os olhos tentam enxergar aquele ponto escondido entre a escova de dentes e as lágrimas, ou olheiras. Olhos que decantam.
Oração. Caminhada, conversa, papo, mastigar. Com a mente focada, ou desfocada, em movimento, foto borrada, borrão de sorriso, ou de dedos nos óculos, ou os pontos de luz das gotas d’água nas lentes, a dança sutil das águas. Respirar. Aprender a respirar. Se levantar, estudar cada movimento como se fosse o primeiro. Mover-se em direção a. Não tem volta, não tem resposta, a ilha permanece desabitada, com sua mensagem flutuando. O náufrago permanece com sua sina de ter de ouvir-se sempre, é a única companhia que tem e terá, caminhando consigo, com seu fardo, com seu fado, só.
Prever a fumaça do cigarro, que direção toma, que caminhos percorre entre o ar e a boca, entre o céu e a terra. Expelir tudo de uma vez, sopro de fumaça, sopro de vida, sopro do vento no mar, mas ninguém vê. Ida e desvolta, só ida, só volta, estrada de mão dupla, sem mão. Mandar mensagens SOS, socorro, mayday, alô, tem alguém aí, e só receber aquele som sem palavras, sem vibrações, aquele som chamado silêncio. Sentir a fria ironia do universo, que não ri, mas se diverte, se fosse possível o universo se divertir, com tantas ligações não retornadas, tantas chamadas não atendidas, tantas mensagens visualizadas, apenas aquela suspensão de espera, o tempo ondulando como a fumaça do cigarro, como a vida que se esvai, e ninguém vê. A areia livre, que escorre entre os dedos, sem ser retida, uma única vez.
Colar o ouvido à concha e ouvir. É só isso. Ouvir. Ouvir. Ouvir. Ouvir.
Oração, rezar, pedir, agradecer, se comunicar, se comunicar com quem? Se comunicar, no seu sentido mais amplo ou mais restrito, a comunicação sem comunicação, mas ainda comunicação. Orar, corar, chorar, tão verbos e tão próximos. Sempre o outro, mas sem o outro. A presença que se dá de outras formas. Rubor, lágrimas, olhos fechados. Abraçar o vazio e sentir o grande espaço.

Oração. Calar o coração baixinho, quieto, sussurrante, e acariciá-lo com delicadeza, com leveza, com surpresa. É como amar. 

domingo, 26 de julho de 2015

Sísifo


“O espelho só me ensina a ruína do desejo
Sei que é meu esse olhar onde eu não mais me vejo”
(Antônio Carlos Secchin)

Pela janela do ônibus eu vejo
Todas as versões melhores de mim mesmo
Da janela do ônibus eu olho aqueles olhos
Espelhos do vidro fosco e seco

Da janela do ônibus eu me vejo,
Este monstruário azedo que (me en)torno
À mostra o animal exótico em que me transformo
Exótico pelo inexorável vitral da janela, que me olha

[Do pó ao pó e do pó à porra]

Os ciclos revolucionários das rodas desfilam
Pela língua infinita das ruas asfaltadas
E os olhos dos bueiros que me observam
Mostram versões melhoradas de mim mesmo

[Da porra ao pó e do pó ao podre]

As forças me puxam e refletem ao redor o meu fracasso
Os pacientageiros conversam, mas não sobre mim
As máquinas bombeiam sangue radioativo para combustível
E os sons metálicos convergem sinfônicos, mas não sobre mim

As sobras dos meus restos eu recolho pelos lixos
Os fuzis apontam inglórias justiças

[Do podre à porra e da porra ao porre]

E as garrafas quebram uma a uma os meus brilhos
Dos meus olhos pretos e amaçados
Amarrados à janela do ônibus
E o meu indesejo que apita trinante
Desmorona de-graus abaixo para se unir

Às versões melhores de mim mesmo 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Asa Bailarina


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
(Motivo - Cecília Meireles)

Quando via o CD rodando dentro do rádio que a gente tinha há um tempo, não pensava em nada, mas gostava de ver. Era legal como ele girava e girava, tão rápido. Hoje não vejo mais os CD’s rodando, mas penso que são como bailarinas em alguma apresentação no teatro. Nunca vi, mas acho que sim.
Aliás, a palavra bailarina não me sugere rodopios no ar, nem giros, só uma delicadeza rítmica, um farfalhar de tecido quando a língua toca no céu da boca pra sair o L e o estridente “rina” que fecha o movimento, veloz e perfeito. Decidido. Baile, baila, bailarina. Caixinha de música e ela lá rodando, como uma baiana de escola de samba, com a mãozinha no alto, a outra na cintura os olhos fechados, rodando.
Peça que envolve o pavio de determinado tipo de lampião a querosene; camisa de incandescência. Bailarina incandescente. Brilhante. Bailarina fênix. Como o dicionário pode nos ensinar coisas! Do latim, baillare. Dançarina profissional. Dançar, dança. Se movimentar, no espaço, no tempo. Cruzar o ar com alguma pirueta fatal, impossível, e aterrissar como se fosse a coisa mais simples. Beleza, leveza. Os pés de uma bailarina. A graça, a vida, a delicadeza, ocultas por umas sapatilhas e meias. Os pés. A harmonia, a alegria, a tudo. Tuda. Bailar. Valsar.
A bailarina-cisne, a bailarina-cisne-negro, a bailarina-fênix, a bailarina que voa. Asa bailarina. Lamparina. Lâmpada-bailarina. Que ilumina. Que me ilumina. Bailar. Dar saltos e saltar sobre.
Um salto sobre o que você quiser. As pernas fraquejam? O público é ávido, como todos ávidos são os públicos, como todos públicos são os ávidos. Ávido à vida. Há vida debaixo da bailarina. Debaixo da saia que rodopia. Semideusa. Deusa. Ninfa de bosques que não existem. Ninfa de concreto. Bailarina do asfalto.
A bonequinha que gira na caixa de música, que guarda bijuterias. Mamãe é pobre, a caixinha também. A música é de Beethoven. Für Elise. A mesma música do carro do gás. Acho que é sim. A vida passa pelo carro do gás. E ele passa pelas nossas vidas. A menos que a gente use o gás encanado. Beethoven encanado. Ressoando pelas tubulações do Rio de Janeiro. Deixaria essa cidade feia um pouco mais bonita. Não porque é Beethoven, mas porque Beethoven é. E nem sei nada de música. Mas queria compor alguma pra alguma Elise. Ficam só o desejo e a vontade, e Beethoven. Ainda bem que ele compôs essa, porque se dependesse de mim... tão mais fácil usar a beleza de outra obra pra aumentar a sua própria.
Bailarinas no céu, nos morros, nas casas, deixaria essa cidade feia um pouco mais bonita. Asas de bailarinas. Foram-lhes concedidas por Deus. Assim como aos anjos. Mas anjos só tocam nas liras e protegem as pessoas. Bailaliras.
Bailarimas. Poesia é rima, mas poesia também pode ser outra coisa. Não sou o dono da verdade, e por isso posso roubá-la. Só às vezes. Bailaretas. Poetas bailando no mar. Mas a vida nem é isso.
A vida tá tão cheia de pontos finais que acho melhor só usar vírgulas daqui por diante, porque vírgulas unem, apesar de parecer que separam, elas unem na verdade, são como cimento, mas agem melhor do que cimento, porque cimento é concreto e pode pesar, mas as vírgulas quase não pesam, são uma coisinha assim e, pronto, já foram, já são, vírgulas,
Brincadeira, não sei se a vida tá cheia de pontos finais, falo assim por falar, mas não sei, bailabrinca na vida, bailobrinco com a vida; vai lá brincar com a vida; Vai lá bailar, bailarina; dance não porque mandaram, mas porque você pode, dançar é revolução,
Assim como revolução também tem sentido de girar, rodopiar; retorno periódico de um corpo astral a um ponto da própria órbita; volta completa, giro, rotação, e foi o dicionário que disse, diz-cionário; rodar como roda a baiana, como roda o palito na máquina de fazer algodão doce, como rodam os furacões, como rodam os girassóis;

Revoluciona, bailarina, bailalivre