Aquele
inefável instante em que toda a cadeia de pensamentos percorre lugares
desconhecidos. Você sabe que ele não se repetirá, mas ainda tenta se convencer
de que vai lembrar daqui a meia hora daqui a meia a uma a uma e meia e duas
horas. Você tem certeza de que esse instante é único no mundo, mais único do que
todos os demais instantes, é o instante,
sem igual, sem semelhança, sem qualquer ligação com o mundo físico-etéreo das
divindades terrestres, posto que esteja mergulhado nele, encharcado dele. É um
ponto-instante, um suspiro-instante, um espirro-instante, algo assim qualquer
coisa quase capturável pelos sentidos comuns dos seres humanos que habitam esta
vaga terra, selvas de pensamentos nunca realizados, cortados sempre numa
ainda-não-realização mas estava tão perto que fracassou que quebrou e se foi
embora com as aves migratórias. Até porque essas aves são os únicos entes vivos
capazes de cruzar as fronteiras entre dimensões de um mesmo plano. Aves-ventos
do sul, do oeste, espaciais, siderais, ave-vento, ventanias sibilantes cantando
valsas rasantes enquanto mergulham à pesca de algum alimento espírito-corpóreo.
São elas, e mais ninguém, que fazem os seus cabelos esvoaçarem na praia, no
descampado, e aquietam-no debaixo de uma árvore frondosa, fazendo-os cair
suavemente sobre seus ombros, só pra que você, num rápido e preciso movimento
de cabeça, jogue-os para trás, ou os coloque delicadamente atrás da orelha
esquerda, revelando aquele brinco que você comprou há sete meses quando a gente
fazia qualquer despropósito desimportante, e eu fico com a vontade de colocar
uma flor ali, de laranjeira, de maracujá, alguma que seja fresca e clara,
reluzente e simples, resistente e um pouco melancólica, pois sabe que murchará
em breve, e é a efemeridade do momento que conta, que vale, que conta, que faz
o meu ato de colocar a flor na sua orelha descoberta algo além do simples
colocar a flor na sua orelha descoberta e se transforme no desabrochar de um
sentimento mais-que-perfeito, pretérito antes do pretérito, criação antes da
Criação, Deus antes de Deus, um sentimento preexistente, mas momentâneo,
recuperado pela força de uma vontade, de duas vontades, as nossas duas vontades,
de sangue, de vida, de força, de poesia, é claro que a poesia entra porque
somos poetas refundadores eternos da poesia, guardiões das chamas sagradas que
queimam em fósforos de dois reais ou menos. Cada e toda chama é sagrada e
profana, fumaça e concreto, pesada e leve, futuro e pretérito. Convivendo em
algum presente perdido entre os fios dos seus cabelos, porque no fundo eu ainda
não saí deles, ainda não me livrei da cena em que eles esvoaçam pela força de
uma brisa, um vento, uma ventania, uma canção, triste e alegre, cheia de
vazios, corrente caudalosa e potente, um sopro.
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
Prólogo das árvores cortadas
Eu
tenho poeira nos olhos e
Manchas
de gordura nas lentes dos meus óculos
Lombadas
de livros velhos
Páginas
amareladas e espirros sucessivos
Mão
esquerda bagunçando
Os
cabelos sempre revolucionados
Pianos
jovens compondo
Músicas
improváveis para violinos
E
os pastores ao longe
Naquele
campo idílico que resolvi deixar
Porque
a vida é mais do que vento e grama
Mais
do que nuvens e chuva, semente e flor
Mais
do que cercas de arame e suco de uva
Mais
do que feno e gado, milho e café
A
vida é mais do que nada
É
só uma natureza morta qualquer
Quem
dera fosse impressionista
Mas
as catedrais imensas desabam
Dentro
de mim, do meu corpo, esse outro
Não,
não, não é um outro, são só os óculos embaçados mesmo
Fingir
ver, mas deixar os olhos se afastarem e a visão duplicar
Fingir
Prazeres
microcósmicos, pequeninos assim
Não
há terra natal
Acho
que já disse isso antes
Sem
problema redizer
Mais
do que a vida uma canção
Em
orquestra, dentro de um navio naufragado
Ambientação
perfeita, acústica perfeita, convidados perfeitos
Músicos
perfeitos, feito uma canção
Que
vai ser cantada a plenos pulmões
Pelos
últimos habitantes de Atlântida
Queria
uma dança a dois
Agora
entendo Adão, embora ele seja meio babaca
Ou
um babaca completo
Fazer
o quê se acabo me identificando melhor com eles, os babacas
É
um devaneio, mas poderia ser uma história
Contada
por gerações enquanto a batata frita
Mas
brincar de bola nunca mais foi o mesmo
Depois
que eu resolvi manter os olhos abertos
E
os óculos atentos, e lá vem bolada, já foi
Fechar
os olhos é meio que andar num mundo desconhecido
O
reino do imaginário, os domínios divinos
Não
deixa de ser um Éden
É
meio que mergulhar num abismo, que tem fim
E
vai doer, muito
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Pra vala
*
O
Rio de Janeiro continua lindo, continua limbo, lerdo, lívido, o Rio de Janeiro
continua risco, continua sendo, lendo, vendo, à venda a lenda a tenda, atenta,
atentado ao lindo, ao rindo, ao rico, ao findo. O Rio de Janeiro continua lixo.
Alô alô Realengo, reavendo o real engenho, relativo, reativo, revisto, alô alô
Bangu, Santíssimo, Jacarepaguá, alô Campo Grande, Tijuca, Penha, Irajá, alô
copacabana, copabacana, copasacana, ipanema iracema no cinema da cinelândia,
cracolândia na linha do trem, do Santa Cruz-Central, central do brasil,
centauro, centavo, vinte centavos, quarenta centavos, é a passagem, é a miragem
é a malandragem a paisagem o dedo de Deus e Ele por inteiro, o
Corcorcorcorcovado, corcunda, velho gago, olhando pro céu, apontando pro teu
braço, pro teu relógio, o relógio da Central, o relógio parado, atrasado, de
quatro faces, olhando pro passado e querendo o futuro com medo do presente cada
vez mais pão duro, incerto, deserto, deserto decerto de asfalto e carros,
multidões de carros e buzinas e trânsitos vândalos quebrando o ponto de ônibus
e sentindo o gosto de borracha a borracha da bala da bala a bala da borracha e
o cheiro do gás o gás das lágrimas as cálidas e pálidas lágrimas da Candelária
o pária da Glória a marina gente fina andando pelas calçadas o calçadão de
pedras que sambam e dançam e cantam e desfilam no carnaval fatal sensual amoral
verbal sinal o sinal de trânsito e a faixa de pedestres pessoas que atravessam
as ruas pra lá pra cá em todo lugar e vai e vem e enchem as ruas de vida de
suor de gritos e palavrões e violência e alegria e euforia tá chegando o
carnaval tá chegando o natal tá chegando o feriado, feriadão São Sebastião São
Jorge e Tiradentes dia do trabalhador-or-or dia do trabalho as lojas fecham os
mercados abrem os carros saem pra Cabo Frio, pra Búzios, pra Rio das Ostras,
pra Região dos Lagos pra Região Serrana pra copacopacabana pra praia e a areia
cheia de sereias de areia de castelos de areia de corcovados e pães de açúcar
de areia de lapas e maracanãs de areia de pessoas de areia a areia da praia o
guarda sol e a cerveja gelada no isopor do camelô que anda por aí e também é
trabalhador e a gostosa de biquíni de fio dental de canga e com samba no pé na
tela da TV na hora da novela das nove a novela da zona sul a zona de quem tem
sangue azul e é estrela de novela do Manoel Carlos e anda pelo Leblon e tem
problema de som no fundo do ônibus com a molecada ouvindo um funk bom no volume
mais altão e irritando o trabalhador que volta cansadão da labuta da luta da
puta que o pariu e volta de trem e compra uma cerveja porque é filho de Deus e
Ele é brasileiro é carioca e usa chinelo de dedo acorda cedo caminha no
calçadão toma água de coco e joga futevôlei com o Romário nos domingos de folga
porque também é filho de Deus e ser carioca é tudo de bom. Rio de Janeiro, cidade
maravilhosa, maraviscosa, maravigoza, Rio 40, 42, 45, Rio 50 graus, antessala
do inferno, calor do mal, calor infernal, calor do carnaval, sambando na
apoteose do caos, alô alô Rio de Janeiro, Copacabana princesinha, Rocinha
putinha de gringo, safari do governo, UPP puliça pacificadora, puliça
metralhadora, matadora, morredora, sofredora, puliça do Estado, do município,
puliça que obedece a política de pé rapado, de pé sujo, de político prolixo,
político sifilítico, político artístico, político popular, populista, coronel,
sim senhor, eu mando aqui, sou ditador, derrubo casa, toco o terror, mato
bandido, mato trabalhador, sou gente de bem, sim senhor, sou político,
prefeito, deputado, vereador, sou governador, sim senhor, olha o meu terno o
meu traje do inferno a minha mortalha o meu caixão olha a minha lápide e o
mendigo que mija nela isso que é respeito sim senhor eu sou o manda-chuva eu
faço e aconteço eu tiro vagabundo da rua eu jogo bomba na lua mermão sou
carioca sou traficante e o dono da boca é meu funcionário vigário escriturário
empresário sou chefão poderoso sou o poderoso chefão mando na cidade sou
cafetão mermão sou o cara o tal o sinistro olha o tamanho do meu pau se quiser
eu boto fogo na cidade eu queimo ônibus e jogo a culpa no manifestante no
traficante no centro avante da Bolívia se quiser eu paro tudo dou uma de maluco
e uso meus filhos de escudo eu sou pai de família pai de duas filhas e olha
como eu sou bonzinho não tem porque me culpar eu só quero ajudar eu tô aqui pra
melhorar e fazer o que dá e o que não dá eu sou vagabundo andando por esse
Riomundo esse Rio de Janeiro, fevereiro e março, e mando um abraço pra Bangu 1,
2, 3, 4 e cinco mil pega a sua inveja e vai pra puta que pariu é assim que
funciona vou pra Ipanema e pego uma onda volto pra casa de busão mas não tem mais busão porque o
prefeito o meu prefeito o senhor do mal tirou meu busão não quer me deixar ir
pra praia não é um cuzão um cagalhão vou me espremer no metrô junto com o povo
trabalhador aqui não tem Newton não todos os corpos ocupam o mesmo espaço e a
física ficou de fora porque lerdou e não conseguiu entrar e já tô indo nessa
minhoca de metal meus pés nem tocam o chão mas eu tô legal porque hoje tá um
solzão bom pro futebol com a rapaziada depois aquela cerveja gelada no boteco
do meu camarada. Meu parça fechamento que conheci ontem à tarde na pastelaria
do china que na verdade é um japa com sotaque coreano, me xingando na língua
dele mas me perguntando carne, queijo ou frango, é um cara maneiro, uma cara
maneira, sou carioca, cara é cara e cara é cara, minha mana, meu mano, Seu
Fulano topa qualquer parada, roda Cantagalo, sem um Vintém, no meio da Aliança
na boca do Sapo, esporando um Cavalo de Aço na Baixa do Sapateiro, o goleiro do
flamengo vem da várzea dali debaixo e agora vai pra Europa jogar no Barça,
Málaga ou em Madrid e conhece Engenho Novo, Engenho de Dentro e madu Madu
Madureira, o meu lugar, o meu luar na pedra da Gávea, no bosque da Barra na
Quinta da Boa Vista em Benfica ou Bento Ribeiro, Oswaldo Cruz, Santa Cruz,
Fiocruz, Mangueira ou Manguinhos, na Maré, Marechal Hermes e Deodoro, na Praça
da Bandeira, São Cristóvão ou Quintino, berço do Galinho, o artilheiro, o cara,
o dez, o cem, o mil, é mais uma batida na avenida Brasil, globocop na área,
sobrevoando a estrada, vídeo direto da Baixada no RJTV primeira edição da hora
do almoço, motorista na contramão, tava bebo, tava bebo não, tava chapado
Chapadão dão dão Chapadown, dawn, chapatown, clown, tava sim e aqui é a é a
lei, lei seca, lei soca, lei muriçoca, lei morta, mulher morta, pobre morta, é negra e tá morta, é negro morto, é lei torta, e agora as notícias do tempo vai fazer
calor, hoje amanhã e depois vai passar Chico no teatro só pra nós dois, vai ter
Flamengo e Vasco no Maraca, vai ter Copa, copacopacabana, vai ter Olimpíada,
Olimpiada, vai ter BRT dando certo na TV e Rock in Rio com trabalho escravo,
com lucro e garrafa d’água sem tampa vai ter consumo desenfreado no fim de ano
vai ter desempregado fazendo planos pulando ondas no Réveillon e vendo os fogos
pela televisão e bebendo champanhe baratão, soltando o 12 por 1 que só faz
barulhão, vai ter abraço e adeus ano velho feliz ano novo e show da virada
gravado em novembro e especial de natal da tevê globo, vai ter verão, verãozão,
calorzão, vai ter batidão, carro de som, música alta e novinha descendo até o
chão, vai ter babacão, mano sem noção, taradão, machistão, meu pau na tua mão,
vai ter racista, passista, percussionista, bateria da escola de samba, vai ter
bloco de rua e gente pra todo canto, carnavalização, vai ter gente maneira e
gente ridícula, vai ter gente boa e gente maníaca, vai ter dengue, febre e água
parada, e mais vinte mil coisas todas ao mesmo tempo em todo momento na cidade
maravilhosa, maracilada.
* Créditos da foto: http://extra.globo.com/noticias/rio/a-bela-suja-enseada-de-botafogo-espera-do-fim-do-jogo-de-empurra-do-poder-pubico-6311918.html
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Verso aberto (I)
"Nós somos um tênue pólen dos mundos..."
(Êxtase - Cecília Meireles)
Como
escrever os olhos dela? Por que começar a partir deles? Talvez eu só consiga
responder essa pergunta se voltar para dois dias antes da Criação. Entender, de
alguma forma, que cada letra, uma após a outra, é um meio de realização, um
ente vivo, com vontade própria, tentando se libertar para um mundo
desconhecido, cheio de medo, mas disposto a isso, ao tudo, a encarar face a
face o Absoluto, o precipício da realidade, a condenação inevitável. Para
responder a cada simples pergunta proferida por bocas inocentes, é necessário
regressar aos estágios primevos, quando o Nada ainda era alguma coisa
palpável e comunicava algo além do próprio silêncio de frade. Testar os limites
de cada verbo no infinitivo, arriscar, forçar caminhos por florestas sem cor.
Reconstruir o mundo à imagem e semelhança de Deus, reconstruir Deus, o Criador,
a alma da Vida-em-si, fazer o percurso sem destino, com as inúmeras probabilidades
de queda e derrota e morte. É preciso sentir a morte e a vida pulsando em cada
segundo, isolado, estancado, infinito espiralado, a concha que guarda um
pedacinho da verdade secreta e inimaginável mas sensível à flor da pele. É um
mar para o qual se olha, um mar-espelho, mar-reflexo de forças intangíveis,
fluidas, plasma condensando as tendências de dissociação e assimilação, os
movimentos que geram a matéria, a luz, e o seu inverso, o avesso das vendas
vãs, o ventre sóbrio da mãe ébria, os teus olhos. Que ocultam e revelam ao
mesmo tempo muitas mensagens, mas os mensageiros foram mortos e elas estão à
deriva. Não sou o homem de tato, de sensibilidade poética para captá-las e
transformá-las num elo. Meus elos estão quebrados, as correntes e os laços, um
andarilho perdido sem cavalo, de vistas tristes e corpo cansado, pois já vivi
mil anos e minhas costas principiam a curvar sob o peso das almas que carrego,
que não querem sair de mim, que se alimentam do meu espírito, e me renovam e se
renovam, e juntos criamos novos espaços, novas dimensões, interstícios de
realidades forasteiras. Não, não sou eu que vou, à maneira romântica de ver a
vida, decifrar as mensagens dos teus olhos, e assim vamos nos amar e casar e
sermos felizes para sempre. Não faz sentido pensar nisso, pois você não quer
ser decifrada, é algo além disso, algo diferente das acepções comuns de todas
as palavras. Mensagem, código, decifração, isso não tem referente no que os
teus olhos transmitem, é preciso criar significados concretos, sensíveis ao
tato e ao paladar, experimentáveis nos planos do corpo. São pássaros esvoaçando
em céus surrealistas, em celas naturalistas, em mares barrocos. Mares revoltos,
pulsantes de vontade, criados e criadores, vivos, vívidos, nítidos, intrépidos
borrões rápidos e sucessivos, ferozes, expansivos, tempestuosos, sobrenaturais,
sobre-humanos. Isso, isso tudo, como dizer que são seus olhos, impressões e
expressões, avalanches de nuvens, formas siderais, cósmicas, meu sentimento,
meus sentimentos, coração disparado, corpo estático, corpo-balão, aço frágil,
renascendo a todo momento, reinventando os sentidos, o ouvir, o tocar, o
cheirar, o saborear, o ver, o falar, todas as palavras desmanchando em formas
de algodão doce, iridescentes, evanescentes, espumas-sereias das ondas do mar,
e então firmes, sólidas, pétreas, fortes, resistentes, a rocha basilar do fiat lux! Teus olhos, como escrevê-los
se todas as metáforas se tornam piadas ridículas perto deles? Constelações?
Sóis? Buracos negros? O que são, o que parecem? É ridículo, irrisório, sem
sentido, mas eles são o nome do que desperta em mim sempre que os olho, me
torno janela, espelho, pálida superfície das águas, qualquer coisa
opaca-transparente que tente se aproximar o máximo possível deste verso aberto
que são eles, os teus olhos.
sábado, 10 de outubro de 2015
Migratório
Te
dizer palavras
No
idioma outro
Na
língua dos anjos-caindo
Fingir
poemas
Imaginar
a ideia
De
que sei escrever
De
que as letras desse alfabeto fazem sentido
Um
sentido além da pura interpretação de entes abstratos
Um
sentido ele próprio transcendente.
Me
precipitar. Me declarar quando não estou pronto, porque, afinal, nunca estarei.
Contar coisas, anedotas, me ficcionar. Me tornar precipício, abismo literário,
litevário, literarbitrário. Simular que gosto de você, você gosta de mim e tudo
vai bem. Virtualizar uma realidade concreta demais. Não vou dizer sonhar porque
isso é clichê e ficar falando que você é o meu sonho ou que eu sonho com nós
dois juntos é ridículo. Até porque amores felizes não fazem literatura, e nós
dois sabemos o que é mais importante aqui.
Sobreviver,
essa é a lei. A cada dia, hora, minuto. Respirar e ter certeza de que você
também está respirando, seja lá onde esteja. Pronunciar teu nome, cada sílaba,
e repetir, só pra ter certeza. A boca que se abre, a língua que ondula, o final
quase frouxo, com a última vogal escapando sorrateira. Como a vida. Sorrateira
como a vida. Assim, inesperada, em cada esquina, ou talvez na próxima curva, ou
na descida do ônibus. Onde se solta, se salta.
Burlar
as regras desse jogo inventado
Trocar
sinônimos por neologismos
Ininteligíveis.
Esse é o ditado
As
palavras de ferro
Na
ordem do dia, nublado
Por
nuvens de chumbo, infelizes
Garoando
gotas melancólicas, feriado
De
ruas desertas, alguns guarda-chuvas
Nós
dois andando, molhados
Tentando
caber no espaço pequeno
De
uma sombrinha, mãos dadas.
E
éramos felizes.
Porque
só no passado
Se
encontram as raízes
Das
flores futuras. Fadado,
O
presente no devir
Da
queda dos anjos, alados.
Mentir,
descobrir o significado secreto das coisas quase simples. Perceber o olhar
enviesado, o desvio inevitável, o ponto longínquo, ou próximo, ao lado. O
delírio cósmico fluxo de pensamentos não pedido, não desejado, chegando a
conclusões provisórias, suspensas no entreato de um enunciado incompleto. Formas
dançantes do vazio, a sucessão de balés sísmicos alheios ao mundo sonolento,
acrobatas do circo na beira da Terra, atrás das muralhas de gelo que nos
protegem da liberdade, comunicam códigos feéricos das línguas esquecidas. Resgatadas
por nós, em nossa incansável tarefa de escavar os túneis abissais do sentimento
que emerge numa troca de olhares. O emergir súbito, à procura de ar, sôfrego e
mudo, sôfrego e surdo, sôfrego e tudo. Os pulmões inflando, inflando, o sangue
correndo, escorrendo, fluindo o transporte dos gases, a troca dos gases, aquilo
que chamamos respiração, e a sua suspensão voluntária, no meditar, flutuar no
éter de uma reflexão intimista. O reflexo no espelho, sendo surpreso, pois vê
outro que não si mesmo, mas ainda assim é ele próprio, o reflexo que reflete o
desejo, o reflexo que carrega as cores de uma pintura expressionista, a cor, o
ritmo, o respirar, a transmissão de Algo para Algo. Nomear, desnomear,
renomear, buscar a subversão dos significados, a anarquia dos significados, a
revolução do eu te amo.
O
nosso alfabeto estelar
Artificial
Humano
e divino
Carnal
Feliz
e suicida
Infrarreal
Vívido
e sóbrio
Fatal
Neurótico
e viciado
Sexual
Delinquente
e juvenil
Ancestral
Borbulhante
e azedo
Neandertal
Sinal,
o signo-representação-corpórea de substâncias transcendentes, superficiais,
camadas de magma derrapante, impulsivo e explosivo, eruptivo, nuclear, atômico
e astronômico, linguístico. Palavra-concreto, encarnando o que é/foi, possessão
violenta, coisa-palavra, indissociável, indecidível, aleatória. A ideia do
olhar, o meu sentimento, o eu, o sentir, o você, o te, agir, o mar, a-mar, o
amar, o alfabeto, o Aleph, a correnteza de sensações à flor da pele, a emoção
ainda sem nome, o que eu sinto, o que não consigo sentir, a minha entrega,
total, ao sentir, sem esperar resposta, não posso, não quero, pois cada
segundo, cada unidade de medida-tempo arbitrária, é um eterno precioso que não
devo desperdiçar, frágil e poroso entre as minhas débeis mãos, é o que eu não
sei a vida o dizer o não-dizer o expressar em gestos o teatro de gestos teatro
de marionetes cegas a vida o mar o que eu penso e sinto e quero e acho e ajo e
finalmente o não-fim o meu delírio e a minha vontade te dizer palavras antes
que eu sufoque me asfixie e fique impossível, improvável, rebentar de vez essa
represa que é o meu ser e fluir sem destino mas com objetivo: você.
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