segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Verso aberto (II)



Aquele inefável instante em que toda a cadeia de pensamentos percorre lugares desconhecidos. Você sabe que ele não se repetirá, mas ainda tenta se convencer de que vai lembrar daqui a meia hora daqui a meia a uma a uma e meia e duas horas. Você tem certeza de que esse instante é único no mundo, mais único do que todos os demais instantes, é o instante, sem igual, sem semelhança, sem qualquer ligação com o mundo físico-etéreo das divindades terrestres, posto que esteja mergulhado nele, encharcado dele. É um ponto-instante, um suspiro-instante, um espirro-instante, algo assim qualquer coisa quase capturável pelos sentidos comuns dos seres humanos que habitam esta vaga terra, selvas de pensamentos nunca realizados, cortados sempre numa ainda-não-realização mas estava tão perto que fracassou que quebrou e se foi embora com as aves migratórias. Até porque essas aves são os únicos entes vivos capazes de cruzar as fronteiras entre dimensões de um mesmo plano. Aves-ventos do sul, do oeste, espaciais, siderais, ave-vento, ventanias sibilantes cantando valsas rasantes enquanto mergulham à pesca de algum alimento espírito-corpóreo. São elas, e mais ninguém, que fazem os seus cabelos esvoaçarem na praia, no descampado, e aquietam-no debaixo de uma árvore frondosa, fazendo-os cair suavemente sobre seus ombros, só pra que você, num rápido e preciso movimento de cabeça, jogue-os para trás, ou os coloque delicadamente atrás da orelha esquerda, revelando aquele brinco que você comprou há sete meses quando a gente fazia qualquer despropósito desimportante, e eu fico com a vontade de colocar uma flor ali, de laranjeira, de maracujá, alguma que seja fresca e clara, reluzente e simples, resistente e um pouco melancólica, pois sabe que murchará em breve, e é a efemeridade do momento que conta, que vale, que conta, que faz o meu ato de colocar a flor na sua orelha descoberta algo além do simples colocar a flor na sua orelha descoberta e se transforme no desabrochar de um sentimento mais-que-perfeito, pretérito antes do pretérito, criação antes da Criação, Deus antes de Deus, um sentimento preexistente, mas momentâneo, recuperado pela força de uma vontade, de duas vontades, as nossas duas vontades, de sangue, de vida, de força, de poesia, é claro que a poesia entra porque somos poetas refundadores eternos da poesia, guardiões das chamas sagradas que queimam em fósforos de dois reais ou menos. Cada e toda chama é sagrada e profana, fumaça e concreto, pesada e leve, futuro e pretérito. Convivendo em algum presente perdido entre os fios dos seus cabelos, porque no fundo eu ainda não saí deles, ainda não me livrei da cena em que eles esvoaçam pela força de uma brisa, um vento, uma ventania, uma canção, triste e alegre, cheia de vazios, corrente caudalosa e potente, um sopro.

 

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