sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Prólogo das árvores cortadas



Eu tenho poeira nos olhos e
Manchas de gordura nas lentes dos meus óculos
Lombadas de livros velhos
Páginas amareladas e espirros sucessivos
Mão esquerda bagunçando
Os cabelos sempre revolucionados
Pianos jovens compondo
Músicas improváveis para violinos
E os pastores ao longe
Naquele campo idílico que resolvi deixar
Porque a vida é mais do que vento e grama
Mais do que nuvens e chuva, semente e flor
Mais do que cercas de arame e suco de uva
Mais do que feno e gado, milho e café
A vida é mais do que nada
É só uma natureza morta qualquer
Quem dera fosse impressionista
Mas as catedrais imensas desabam
Dentro de mim, do meu corpo, esse outro
Não, não, não é um outro, são só os óculos embaçados mesmo
Fingir ver, mas deixar os olhos se afastarem e a visão duplicar
Fingir
Prazeres microcósmicos, pequeninos assim
Não há terra natal
Acho que já disse isso antes
Sem problema redizer
Mais do que a vida uma canção
Em orquestra, dentro de um navio naufragado
Ambientação perfeita, acústica perfeita, convidados perfeitos
Músicos perfeitos, feito uma canção
Que vai ser cantada a plenos pulmões
Pelos últimos habitantes de Atlântida
Queria uma dança a dois
Agora entendo Adão, embora ele seja meio babaca
Ou um babaca completo
Fazer o quê se acabo me identificando melhor com eles, os babacas
É um devaneio, mas poderia ser uma história
Contada por gerações enquanto a batata frita
Mas brincar de bola nunca mais foi o mesmo
Depois que eu resolvi manter os olhos abertos
E os óculos atentos, e lá vem bolada, já foi
Fechar os olhos é meio que andar num mundo desconhecido
O reino do imaginário, os domínios divinos
Não deixa de ser um Éden
É meio que mergulhar num abismo, que tem fim
E vai doer, muito

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