Eu
tenho poeira nos olhos e
Manchas
de gordura nas lentes dos meus óculos
Lombadas
de livros velhos
Páginas
amareladas e espirros sucessivos
Mão
esquerda bagunçando
Os
cabelos sempre revolucionados
Pianos
jovens compondo
Músicas
improváveis para violinos
E
os pastores ao longe
Naquele
campo idílico que resolvi deixar
Porque
a vida é mais do que vento e grama
Mais
do que nuvens e chuva, semente e flor
Mais
do que cercas de arame e suco de uva
Mais
do que feno e gado, milho e café
A
vida é mais do que nada
É
só uma natureza morta qualquer
Quem
dera fosse impressionista
Mas
as catedrais imensas desabam
Dentro
de mim, do meu corpo, esse outro
Não,
não, não é um outro, são só os óculos embaçados mesmo
Fingir
ver, mas deixar os olhos se afastarem e a visão duplicar
Fingir
Prazeres
microcósmicos, pequeninos assim
Não
há terra natal
Acho
que já disse isso antes
Sem
problema redizer
Mais
do que a vida uma canção
Em
orquestra, dentro de um navio naufragado
Ambientação
perfeita, acústica perfeita, convidados perfeitos
Músicos
perfeitos, feito uma canção
Que
vai ser cantada a plenos pulmões
Pelos
últimos habitantes de Atlântida
Queria
uma dança a dois
Agora
entendo Adão, embora ele seja meio babaca
Ou
um babaca completo
Fazer
o quê se acabo me identificando melhor com eles, os babacas
É
um devaneio, mas poderia ser uma história
Contada
por gerações enquanto a batata frita
Mas
brincar de bola nunca mais foi o mesmo
Depois
que eu resolvi manter os olhos abertos
E
os óculos atentos, e lá vem bolada, já foi
Fechar
os olhos é meio que andar num mundo desconhecido
O
reino do imaginário, os domínios divinos
Não
deixa de ser um Éden
É
meio que mergulhar num abismo, que tem fim
E
vai doer, muito

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