sábado, 10 de outubro de 2015

Migratório



Te dizer palavras
No idioma outro
Na língua dos anjos-caindo
Fingir poemas
Imaginar a ideia
De que sei escrever
De que as letras desse alfabeto fazem sentido
Um sentido além da pura interpretação de entes abstratos
Um sentido ele próprio transcendente.
Me precipitar. Me declarar quando não estou pronto, porque, afinal, nunca estarei. Contar coisas, anedotas, me ficcionar. Me tornar precipício, abismo literário, litevário, literarbitrário. Simular que gosto de você, você gosta de mim e tudo vai bem. Virtualizar uma realidade concreta demais. Não vou dizer sonhar porque isso é clichê e ficar falando que você é o meu sonho ou que eu sonho com nós dois juntos é ridículo. Até porque amores felizes não fazem literatura, e nós dois sabemos o que é mais importante aqui.
Sobreviver, essa é a lei. A cada dia, hora, minuto. Respirar e ter certeza de que você também está respirando, seja lá onde esteja. Pronunciar teu nome, cada sílaba, e repetir, só pra ter certeza. A boca que se abre, a língua que ondula, o final quase frouxo, com a última vogal escapando sorrateira. Como a vida. Sorrateira como a vida. Assim, inesperada, em cada esquina, ou talvez na próxima curva, ou na descida do ônibus. Onde se solta, se salta.
Burlar as regras desse jogo inventado
Trocar sinônimos por neologismos
Ininteligíveis. Esse é o ditado
As palavras de ferro
Na ordem do dia, nublado
Por nuvens de chumbo, infelizes
Garoando gotas melancólicas, feriado
De ruas desertas, alguns guarda-chuvas
Nós dois andando, molhados
Tentando caber no espaço pequeno
De uma sombrinha, mãos dadas.
E éramos felizes.
Porque só no passado
Se encontram as raízes
Das flores futuras. Fadado,
O presente no devir
Da queda dos anjos, alados.
Mentir, descobrir o significado secreto das coisas quase simples. Perceber o olhar enviesado, o desvio inevitável, o ponto longínquo, ou próximo, ao lado. O delírio cósmico fluxo de pensamentos não pedido, não desejado, chegando a conclusões provisórias, suspensas no entreato de um enunciado incompleto. Formas dançantes do vazio, a sucessão de balés sísmicos alheios ao mundo sonolento, acrobatas do circo na beira da Terra, atrás das muralhas de gelo que nos protegem da liberdade, comunicam códigos feéricos das línguas esquecidas. Resgatadas por nós, em nossa incansável tarefa de escavar os túneis abissais do sentimento que emerge numa troca de olhares. O emergir súbito, à procura de ar, sôfrego e mudo, sôfrego e surdo, sôfrego e tudo. Os pulmões inflando, inflando, o sangue correndo, escorrendo, fluindo o transporte dos gases, a troca dos gases, aquilo que chamamos respiração, e a sua suspensão voluntária, no meditar, flutuar no éter de uma reflexão intimista. O reflexo no espelho, sendo surpreso, pois vê outro que não si mesmo, mas ainda assim é ele próprio, o reflexo que reflete o desejo, o reflexo que carrega as cores de uma pintura expressionista, a cor, o ritmo, o respirar, a transmissão de Algo para Algo. Nomear, desnomear, renomear, buscar a subversão dos significados, a anarquia dos significados, a revolução do eu te amo.
O nosso alfabeto estelar
Artificial
Humano e divino
Carnal
Feliz e suicida
Infrarreal
Vívido e sóbrio
Fatal
Neurótico e viciado
Sexual
Delinquente e juvenil
Ancestral
Borbulhante e azedo
Neandertal
Sinal, o signo-representação-corpórea de substâncias transcendentes, superficiais, camadas de magma derrapante, impulsivo e explosivo, eruptivo, nuclear, atômico e astronômico, linguístico. Palavra-concreto, encarnando o que é/foi, possessão violenta, coisa-palavra, indissociável, indecidível, aleatória. A ideia do olhar, o meu sentimento, o eu, o sentir, o você, o te, agir, o mar, a-mar, o amar, o alfabeto, o Aleph, a correnteza de sensações à flor da pele, a emoção ainda sem nome, o que eu sinto, o que não consigo sentir, a minha entrega, total, ao sentir, sem esperar resposta, não posso, não quero, pois cada segundo, cada unidade de medida-tempo arbitrária, é um eterno precioso que não devo desperdiçar, frágil e poroso entre as minhas débeis mãos, é o que eu não sei a vida o dizer o não-dizer o expressar em gestos o teatro de gestos teatro de marionetes cegas a vida o mar o que eu penso e sinto e quero e acho e ajo e finalmente o não-fim o meu delírio e a minha vontade te dizer palavras antes que eu sufoque me asfixie e fique impossível, improvável, rebentar de vez essa represa que é o meu ser e fluir sem destino mas com objetivo: você.    

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