Te
dizer palavras
No
idioma outro
Na
língua dos anjos-caindo
Fingir
poemas
Imaginar
a ideia
De
que sei escrever
De
que as letras desse alfabeto fazem sentido
Um
sentido além da pura interpretação de entes abstratos
Um
sentido ele próprio transcendente.
Me
precipitar. Me declarar quando não estou pronto, porque, afinal, nunca estarei.
Contar coisas, anedotas, me ficcionar. Me tornar precipício, abismo literário,
litevário, literarbitrário. Simular que gosto de você, você gosta de mim e tudo
vai bem. Virtualizar uma realidade concreta demais. Não vou dizer sonhar porque
isso é clichê e ficar falando que você é o meu sonho ou que eu sonho com nós
dois juntos é ridículo. Até porque amores felizes não fazem literatura, e nós
dois sabemos o que é mais importante aqui.
Sobreviver,
essa é a lei. A cada dia, hora, minuto. Respirar e ter certeza de que você
também está respirando, seja lá onde esteja. Pronunciar teu nome, cada sílaba,
e repetir, só pra ter certeza. A boca que se abre, a língua que ondula, o final
quase frouxo, com a última vogal escapando sorrateira. Como a vida. Sorrateira
como a vida. Assim, inesperada, em cada esquina, ou talvez na próxima curva, ou
na descida do ônibus. Onde se solta, se salta.
Burlar
as regras desse jogo inventado
Trocar
sinônimos por neologismos
Ininteligíveis.
Esse é o ditado
As
palavras de ferro
Na
ordem do dia, nublado
Por
nuvens de chumbo, infelizes
Garoando
gotas melancólicas, feriado
De
ruas desertas, alguns guarda-chuvas
Nós
dois andando, molhados
Tentando
caber no espaço pequeno
De
uma sombrinha, mãos dadas.
E
éramos felizes.
Porque
só no passado
Se
encontram as raízes
Das
flores futuras. Fadado,
O
presente no devir
Da
queda dos anjos, alados.
Mentir,
descobrir o significado secreto das coisas quase simples. Perceber o olhar
enviesado, o desvio inevitável, o ponto longínquo, ou próximo, ao lado. O
delírio cósmico fluxo de pensamentos não pedido, não desejado, chegando a
conclusões provisórias, suspensas no entreato de um enunciado incompleto. Formas
dançantes do vazio, a sucessão de balés sísmicos alheios ao mundo sonolento,
acrobatas do circo na beira da Terra, atrás das muralhas de gelo que nos
protegem da liberdade, comunicam códigos feéricos das línguas esquecidas. Resgatadas
por nós, em nossa incansável tarefa de escavar os túneis abissais do sentimento
que emerge numa troca de olhares. O emergir súbito, à procura de ar, sôfrego e
mudo, sôfrego e surdo, sôfrego e tudo. Os pulmões inflando, inflando, o sangue
correndo, escorrendo, fluindo o transporte dos gases, a troca dos gases, aquilo
que chamamos respiração, e a sua suspensão voluntária, no meditar, flutuar no
éter de uma reflexão intimista. O reflexo no espelho, sendo surpreso, pois vê
outro que não si mesmo, mas ainda assim é ele próprio, o reflexo que reflete o
desejo, o reflexo que carrega as cores de uma pintura expressionista, a cor, o
ritmo, o respirar, a transmissão de Algo para Algo. Nomear, desnomear,
renomear, buscar a subversão dos significados, a anarquia dos significados, a
revolução do eu te amo.
O
nosso alfabeto estelar
Artificial
Humano
e divino
Carnal
Feliz
e suicida
Infrarreal
Vívido
e sóbrio
Fatal
Neurótico
e viciado
Sexual
Delinquente
e juvenil
Ancestral
Borbulhante
e azedo
Neandertal
Sinal,
o signo-representação-corpórea de substâncias transcendentes, superficiais,
camadas de magma derrapante, impulsivo e explosivo, eruptivo, nuclear, atômico
e astronômico, linguístico. Palavra-concreto, encarnando o que é/foi, possessão
violenta, coisa-palavra, indissociável, indecidível, aleatória. A ideia do
olhar, o meu sentimento, o eu, o sentir, o você, o te, agir, o mar, a-mar, o
amar, o alfabeto, o Aleph, a correnteza de sensações à flor da pele, a emoção
ainda sem nome, o que eu sinto, o que não consigo sentir, a minha entrega,
total, ao sentir, sem esperar resposta, não posso, não quero, pois cada
segundo, cada unidade de medida-tempo arbitrária, é um eterno precioso que não
devo desperdiçar, frágil e poroso entre as minhas débeis mãos, é o que eu não
sei a vida o dizer o não-dizer o expressar em gestos o teatro de gestos teatro
de marionetes cegas a vida o mar o que eu penso e sinto e quero e acho e ajo e
finalmente o não-fim o meu delírio e a minha vontade te dizer palavras antes
que eu sufoque me asfixie e fique impossível, improvável, rebentar de vez essa
represa que é o meu ser e fluir sem destino mas com objetivo: você.

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