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O
Rio de Janeiro continua lindo, continua limbo, lerdo, lívido, o Rio de Janeiro
continua risco, continua sendo, lendo, vendo, à venda a lenda a tenda, atenta,
atentado ao lindo, ao rindo, ao rico, ao findo. O Rio de Janeiro continua lixo.
Alô alô Realengo, reavendo o real engenho, relativo, reativo, revisto, alô alô
Bangu, Santíssimo, Jacarepaguá, alô Campo Grande, Tijuca, Penha, Irajá, alô
copacabana, copabacana, copasacana, ipanema iracema no cinema da cinelândia,
cracolândia na linha do trem, do Santa Cruz-Central, central do brasil,
centauro, centavo, vinte centavos, quarenta centavos, é a passagem, é a miragem
é a malandragem a paisagem o dedo de Deus e Ele por inteiro, o
Corcorcorcorcovado, corcunda, velho gago, olhando pro céu, apontando pro teu
braço, pro teu relógio, o relógio da Central, o relógio parado, atrasado, de
quatro faces, olhando pro passado e querendo o futuro com medo do presente cada
vez mais pão duro, incerto, deserto, deserto decerto de asfalto e carros,
multidões de carros e buzinas e trânsitos vândalos quebrando o ponto de ônibus
e sentindo o gosto de borracha a borracha da bala da bala a bala da borracha e
o cheiro do gás o gás das lágrimas as cálidas e pálidas lágrimas da Candelária
o pária da Glória a marina gente fina andando pelas calçadas o calçadão de
pedras que sambam e dançam e cantam e desfilam no carnaval fatal sensual amoral
verbal sinal o sinal de trânsito e a faixa de pedestres pessoas que atravessam
as ruas pra lá pra cá em todo lugar e vai e vem e enchem as ruas de vida de
suor de gritos e palavrões e violência e alegria e euforia tá chegando o
carnaval tá chegando o natal tá chegando o feriado, feriadão São Sebastião São
Jorge e Tiradentes dia do trabalhador-or-or dia do trabalho as lojas fecham os
mercados abrem os carros saem pra Cabo Frio, pra Búzios, pra Rio das Ostras,
pra Região dos Lagos pra Região Serrana pra copacopacabana pra praia e a areia
cheia de sereias de areia de castelos de areia de corcovados e pães de açúcar
de areia de lapas e maracanãs de areia de pessoas de areia a areia da praia o
guarda sol e a cerveja gelada no isopor do camelô que anda por aí e também é
trabalhador e a gostosa de biquíni de fio dental de canga e com samba no pé na
tela da TV na hora da novela das nove a novela da zona sul a zona de quem tem
sangue azul e é estrela de novela do Manoel Carlos e anda pelo Leblon e tem
problema de som no fundo do ônibus com a molecada ouvindo um funk bom no volume
mais altão e irritando o trabalhador que volta cansadão da labuta da luta da
puta que o pariu e volta de trem e compra uma cerveja porque é filho de Deus e
Ele é brasileiro é carioca e usa chinelo de dedo acorda cedo caminha no
calçadão toma água de coco e joga futevôlei com o Romário nos domingos de folga
porque também é filho de Deus e ser carioca é tudo de bom. Rio de Janeiro, cidade
maravilhosa, maraviscosa, maravigoza, Rio 40, 42, 45, Rio 50 graus, antessala
do inferno, calor do mal, calor infernal, calor do carnaval, sambando na
apoteose do caos, alô alô Rio de Janeiro, Copacabana princesinha, Rocinha
putinha de gringo, safari do governo, UPP puliça pacificadora, puliça
metralhadora, matadora, morredora, sofredora, puliça do Estado, do município,
puliça que obedece a política de pé rapado, de pé sujo, de político prolixo,
político sifilítico, político artístico, político popular, populista, coronel,
sim senhor, eu mando aqui, sou ditador, derrubo casa, toco o terror, mato
bandido, mato trabalhador, sou gente de bem, sim senhor, sou político,
prefeito, deputado, vereador, sou governador, sim senhor, olha o meu terno o
meu traje do inferno a minha mortalha o meu caixão olha a minha lápide e o
mendigo que mija nela isso que é respeito sim senhor eu sou o manda-chuva eu
faço e aconteço eu tiro vagabundo da rua eu jogo bomba na lua mermão sou
carioca sou traficante e o dono da boca é meu funcionário vigário escriturário
empresário sou chefão poderoso sou o poderoso chefão mando na cidade sou
cafetão mermão sou o cara o tal o sinistro olha o tamanho do meu pau se quiser
eu boto fogo na cidade eu queimo ônibus e jogo a culpa no manifestante no
traficante no centro avante da Bolívia se quiser eu paro tudo dou uma de maluco
e uso meus filhos de escudo eu sou pai de família pai de duas filhas e olha
como eu sou bonzinho não tem porque me culpar eu só quero ajudar eu tô aqui pra
melhorar e fazer o que dá e o que não dá eu sou vagabundo andando por esse
Riomundo esse Rio de Janeiro, fevereiro e março, e mando um abraço pra Bangu 1,
2, 3, 4 e cinco mil pega a sua inveja e vai pra puta que pariu é assim que
funciona vou pra Ipanema e pego uma onda volto pra casa de busão mas não tem mais busão porque o
prefeito o meu prefeito o senhor do mal tirou meu busão não quer me deixar ir
pra praia não é um cuzão um cagalhão vou me espremer no metrô junto com o povo
trabalhador aqui não tem Newton não todos os corpos ocupam o mesmo espaço e a
física ficou de fora porque lerdou e não conseguiu entrar e já tô indo nessa
minhoca de metal meus pés nem tocam o chão mas eu tô legal porque hoje tá um
solzão bom pro futebol com a rapaziada depois aquela cerveja gelada no boteco
do meu camarada. Meu parça fechamento que conheci ontem à tarde na pastelaria
do china que na verdade é um japa com sotaque coreano, me xingando na língua
dele mas me perguntando carne, queijo ou frango, é um cara maneiro, uma cara
maneira, sou carioca, cara é cara e cara é cara, minha mana, meu mano, Seu
Fulano topa qualquer parada, roda Cantagalo, sem um Vintém, no meio da Aliança
na boca do Sapo, esporando um Cavalo de Aço na Baixa do Sapateiro, o goleiro do
flamengo vem da várzea dali debaixo e agora vai pra Europa jogar no Barça,
Málaga ou em Madrid e conhece Engenho Novo, Engenho de Dentro e madu Madu
Madureira, o meu lugar, o meu luar na pedra da Gávea, no bosque da Barra na
Quinta da Boa Vista em Benfica ou Bento Ribeiro, Oswaldo Cruz, Santa Cruz,
Fiocruz, Mangueira ou Manguinhos, na Maré, Marechal Hermes e Deodoro, na Praça
da Bandeira, São Cristóvão ou Quintino, berço do Galinho, o artilheiro, o cara,
o dez, o cem, o mil, é mais uma batida na avenida Brasil, globocop na área,
sobrevoando a estrada, vídeo direto da Baixada no RJTV primeira edição da hora
do almoço, motorista na contramão, tava bebo, tava bebo não, tava chapado
Chapadão dão dão Chapadown, dawn, chapatown, clown, tava sim e aqui é a é a
lei, lei seca, lei soca, lei muriçoca, lei morta, mulher morta, pobre morta, é negra e tá morta, é negro morto, é lei torta, e agora as notícias do tempo vai fazer
calor, hoje amanhã e depois vai passar Chico no teatro só pra nós dois, vai ter
Flamengo e Vasco no Maraca, vai ter Copa, copacopacabana, vai ter Olimpíada,
Olimpiada, vai ter BRT dando certo na TV e Rock in Rio com trabalho escravo,
com lucro e garrafa d’água sem tampa vai ter consumo desenfreado no fim de ano
vai ter desempregado fazendo planos pulando ondas no Réveillon e vendo os fogos
pela televisão e bebendo champanhe baratão, soltando o 12 por 1 que só faz
barulhão, vai ter abraço e adeus ano velho feliz ano novo e show da virada
gravado em novembro e especial de natal da tevê globo, vai ter verão, verãozão,
calorzão, vai ter batidão, carro de som, música alta e novinha descendo até o
chão, vai ter babacão, mano sem noção, taradão, machistão, meu pau na tua mão,
vai ter racista, passista, percussionista, bateria da escola de samba, vai ter
bloco de rua e gente pra todo canto, carnavalização, vai ter gente maneira e
gente ridícula, vai ter gente boa e gente maníaca, vai ter dengue, febre e água
parada, e mais vinte mil coisas todas ao mesmo tempo em todo momento na cidade
maravilhosa, maracilada.
* Créditos da foto: http://extra.globo.com/noticias/rio/a-bela-suja-enseada-de-botafogo-espera-do-fim-do-jogo-de-empurra-do-poder-pubico-6311918.html

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