segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Pra vala

                                                                                           * 
                                                                                          

O Rio de Janeiro continua lindo, continua limbo, lerdo, lívido, o Rio de Janeiro continua risco, continua sendo, lendo, vendo, à venda a lenda a tenda, atenta, atentado ao lindo, ao rindo, ao rico, ao findo. O Rio de Janeiro continua lixo. Alô alô Realengo, reavendo o real engenho, relativo, reativo, revisto, alô alô Bangu, Santíssimo, Jacarepaguá, alô Campo Grande, Tijuca, Penha, Irajá, alô copacabana, copabacana, copasacana, ipanema iracema no cinema da cinelândia, cracolândia na linha do trem, do Santa Cruz-Central, central do brasil, centauro, centavo, vinte centavos, quarenta centavos, é a passagem, é a miragem é a malandragem a paisagem o dedo de Deus e Ele por inteiro, o Corcorcorcorcovado, corcunda, velho gago, olhando pro céu, apontando pro teu braço, pro teu relógio, o relógio da Central, o relógio parado, atrasado, de quatro faces, olhando pro passado e querendo o futuro com medo do presente cada vez mais pão duro, incerto, deserto, deserto decerto de asfalto e carros, multidões de carros e buzinas e trânsitos vândalos quebrando o ponto de ônibus e sentindo o gosto de borracha a borracha da bala da bala a bala da borracha e o cheiro do gás o gás das lágrimas as cálidas e pálidas lágrimas da Candelária o pária da Glória a marina gente fina andando pelas calçadas o calçadão de pedras que sambam e dançam e cantam e desfilam no carnaval fatal sensual amoral verbal sinal o sinal de trânsito e a faixa de pedestres pessoas que atravessam as ruas pra lá pra cá em todo lugar e vai e vem e enchem as ruas de vida de suor de gritos e palavrões e violência e alegria e euforia tá chegando o carnaval tá chegando o natal tá chegando o feriado, feriadão São Sebastião São Jorge e Tiradentes dia do trabalhador-or-or dia do trabalho as lojas fecham os mercados abrem os carros saem pra Cabo Frio, pra Búzios, pra Rio das Ostras, pra Região dos Lagos pra Região Serrana pra copacopacabana pra praia e a areia cheia de sereias de areia de castelos de areia de corcovados e pães de açúcar de areia de lapas e maracanãs de areia de pessoas de areia a areia da praia o guarda sol e a cerveja gelada no isopor do camelô que anda por aí e também é trabalhador e a gostosa de biquíni de fio dental de canga e com samba no pé na tela da TV na hora da novela das nove a novela da zona sul a zona de quem tem sangue azul e é estrela de novela do Manoel Carlos e anda pelo Leblon e tem problema de som no fundo do ônibus com a molecada ouvindo um funk bom no volume mais altão e irritando o trabalhador que volta cansadão da labuta da luta da puta que o pariu e volta de trem e compra uma cerveja porque é filho de Deus e Ele é brasileiro é carioca e usa chinelo de dedo acorda cedo caminha no calçadão toma água de coco e joga futevôlei com o Romário nos domingos de folga porque também é filho de Deus e ser carioca é tudo de bom. Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, maraviscosa, maravigoza, Rio 40, 42, 45, Rio 50 graus, antessala do inferno, calor do mal, calor infernal, calor do carnaval, sambando na apoteose do caos, alô alô Rio de Janeiro, Copacabana princesinha, Rocinha putinha de gringo, safari do governo, UPP puliça pacificadora, puliça metralhadora, matadora, morredora, sofredora, puliça do Estado, do município, puliça que obedece a política de pé rapado, de pé sujo, de político prolixo, político sifilítico, político artístico, político popular, populista, coronel, sim senhor, eu mando aqui, sou ditador, derrubo casa, toco o terror, mato bandido, mato trabalhador, sou gente de bem, sim senhor, sou político, prefeito, deputado, vereador, sou governador, sim senhor, olha o meu terno o meu traje do inferno a minha mortalha o meu caixão olha a minha lápide e o mendigo que mija nela isso que é respeito sim senhor eu sou o manda-chuva eu faço e aconteço eu tiro vagabundo da rua eu jogo bomba na lua mermão sou carioca sou traficante e o dono da boca é meu funcionário vigário escriturário empresário sou chefão poderoso sou o poderoso chefão mando na cidade sou cafetão mermão sou o cara o tal o sinistro olha o tamanho do meu pau se quiser eu boto fogo na cidade eu queimo ônibus e jogo a culpa no manifestante no traficante no centro avante da Bolívia se quiser eu paro tudo dou uma de maluco e uso meus filhos de escudo eu sou pai de família pai de duas filhas e olha como eu sou bonzinho não tem porque me culpar eu só quero ajudar eu tô aqui pra melhorar e fazer o que dá e o que não dá eu sou vagabundo andando por esse Riomundo esse Rio de Janeiro, fevereiro e março, e mando um abraço pra Bangu 1, 2, 3, 4 e cinco mil pega a sua inveja e vai pra puta que pariu é assim que funciona vou pra Ipanema e pego uma onda volto pra casa de  busão mas não tem mais busão porque o prefeito o meu prefeito o senhor do mal tirou meu busão não quer me deixar ir pra praia não é um cuzão um cagalhão vou me espremer no metrô junto com o povo trabalhador aqui não tem Newton não todos os corpos ocupam o mesmo espaço e a física ficou de fora porque lerdou e não conseguiu entrar e já tô indo nessa minhoca de metal meus pés nem tocam o chão mas eu tô legal porque hoje tá um solzão bom pro futebol com a rapaziada depois aquela cerveja gelada no boteco do meu camarada. Meu parça fechamento que conheci ontem à tarde na pastelaria do china que na verdade é um japa com sotaque coreano, me xingando na língua dele mas me perguntando carne, queijo ou frango, é um cara maneiro, uma cara maneira, sou carioca, cara é cara e cara é cara, minha mana, meu mano, Seu Fulano topa qualquer parada, roda Cantagalo, sem um Vintém, no meio da Aliança na boca do Sapo, esporando um Cavalo de Aço na Baixa do Sapateiro, o goleiro do flamengo vem da várzea dali debaixo e agora vai pra Europa jogar no Barça, Málaga ou em Madrid e conhece Engenho Novo, Engenho de Dentro e madu Madu Madureira, o meu lugar, o meu luar na pedra da Gávea, no bosque da Barra na Quinta da Boa Vista em Benfica ou Bento Ribeiro, Oswaldo Cruz, Santa Cruz, Fiocruz, Mangueira ou Manguinhos, na Maré, Marechal Hermes e Deodoro, na Praça da Bandeira, São Cristóvão ou Quintino, berço do Galinho, o artilheiro, o cara, o dez, o cem, o mil, é mais uma batida na avenida Brasil, globocop na área, sobrevoando a estrada, vídeo direto da Baixada no RJTV primeira edição da hora do almoço, motorista na contramão, tava bebo, tava bebo não, tava chapado Chapadão dão dão Chapadown, dawn, chapatown, clown, tava sim e aqui é a é a lei, lei seca, lei soca, lei muriçoca, lei morta, mulher morta, pobre morta, é negra e tá morta, é negro morto, é lei torta, e agora as notícias do tempo vai fazer calor, hoje amanhã e depois vai passar Chico no teatro só pra nós dois, vai ter Flamengo e Vasco no Maraca, vai ter Copa, copacopacabana, vai ter Olimpíada, Olimpiada, vai ter BRT dando certo na TV e Rock in Rio com trabalho escravo, com lucro e garrafa d’água sem tampa vai ter consumo desenfreado no fim de ano vai ter desempregado fazendo planos pulando ondas no Réveillon e vendo os fogos pela televisão e bebendo champanhe baratão, soltando o 12 por 1 que só faz barulhão, vai ter abraço e adeus ano velho feliz ano novo e show da virada gravado em novembro e especial de natal da tevê globo, vai ter verão, verãozão, calorzão, vai ter batidão, carro de som, música alta e novinha descendo até o chão, vai ter babacão, mano sem noção, taradão, machistão, meu pau na tua mão, vai ter racista, passista, percussionista, bateria da escola de samba, vai ter bloco de rua e gente pra todo canto, carnavalização, vai ter gente maneira e gente ridícula, vai ter gente boa e gente maníaca, vai ter dengue, febre e água parada, e mais vinte mil coisas todas ao mesmo tempo em todo momento na cidade maravilhosa, maracilada.  

* Créditos da foto: http://extra.globo.com/noticias/rio/a-bela-suja-enseada-de-botafogo-espera-do-fim-do-jogo-de-empurra-do-poder-pubico-6311918.html

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