"Nós somos um tênue pólen dos mundos..."
(Êxtase - Cecília Meireles)
Como
escrever os olhos dela? Por que começar a partir deles? Talvez eu só consiga
responder essa pergunta se voltar para dois dias antes da Criação. Entender, de
alguma forma, que cada letra, uma após a outra, é um meio de realização, um
ente vivo, com vontade própria, tentando se libertar para um mundo
desconhecido, cheio de medo, mas disposto a isso, ao tudo, a encarar face a
face o Absoluto, o precipício da realidade, a condenação inevitável. Para
responder a cada simples pergunta proferida por bocas inocentes, é necessário
regressar aos estágios primevos, quando o Nada ainda era alguma coisa
palpável e comunicava algo além do próprio silêncio de frade. Testar os limites
de cada verbo no infinitivo, arriscar, forçar caminhos por florestas sem cor.
Reconstruir o mundo à imagem e semelhança de Deus, reconstruir Deus, o Criador,
a alma da Vida-em-si, fazer o percurso sem destino, com as inúmeras probabilidades
de queda e derrota e morte. É preciso sentir a morte e a vida pulsando em cada
segundo, isolado, estancado, infinito espiralado, a concha que guarda um
pedacinho da verdade secreta e inimaginável mas sensível à flor da pele. É um
mar para o qual se olha, um mar-espelho, mar-reflexo de forças intangíveis,
fluidas, plasma condensando as tendências de dissociação e assimilação, os
movimentos que geram a matéria, a luz, e o seu inverso, o avesso das vendas
vãs, o ventre sóbrio da mãe ébria, os teus olhos. Que ocultam e revelam ao
mesmo tempo muitas mensagens, mas os mensageiros foram mortos e elas estão à
deriva. Não sou o homem de tato, de sensibilidade poética para captá-las e
transformá-las num elo. Meus elos estão quebrados, as correntes e os laços, um
andarilho perdido sem cavalo, de vistas tristes e corpo cansado, pois já vivi
mil anos e minhas costas principiam a curvar sob o peso das almas que carrego,
que não querem sair de mim, que se alimentam do meu espírito, e me renovam e se
renovam, e juntos criamos novos espaços, novas dimensões, interstícios de
realidades forasteiras. Não, não sou eu que vou, à maneira romântica de ver a
vida, decifrar as mensagens dos teus olhos, e assim vamos nos amar e casar e
sermos felizes para sempre. Não faz sentido pensar nisso, pois você não quer
ser decifrada, é algo além disso, algo diferente das acepções comuns de todas
as palavras. Mensagem, código, decifração, isso não tem referente no que os
teus olhos transmitem, é preciso criar significados concretos, sensíveis ao
tato e ao paladar, experimentáveis nos planos do corpo. São pássaros esvoaçando
em céus surrealistas, em celas naturalistas, em mares barrocos. Mares revoltos,
pulsantes de vontade, criados e criadores, vivos, vívidos, nítidos, intrépidos
borrões rápidos e sucessivos, ferozes, expansivos, tempestuosos, sobrenaturais,
sobre-humanos. Isso, isso tudo, como dizer que são seus olhos, impressões e
expressões, avalanches de nuvens, formas siderais, cósmicas, meu sentimento,
meus sentimentos, coração disparado, corpo estático, corpo-balão, aço frágil,
renascendo a todo momento, reinventando os sentidos, o ouvir, o tocar, o
cheirar, o saborear, o ver, o falar, todas as palavras desmanchando em formas
de algodão doce, iridescentes, evanescentes, espumas-sereias das ondas do mar,
e então firmes, sólidas, pétreas, fortes, resistentes, a rocha basilar do fiat lux! Teus olhos, como escrevê-los
se todas as metáforas se tornam piadas ridículas perto deles? Constelações?
Sóis? Buracos negros? O que são, o que parecem? É ridículo, irrisório, sem
sentido, mas eles são o nome do que desperta em mim sempre que os olho, me
torno janela, espelho, pálida superfície das águas, qualquer coisa
opaca-transparente que tente se aproximar o máximo possível deste verso aberto
que são eles, os teus olhos.

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