sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Verso aberto (I)





"Nós somos um tênue pólen dos mundos..."
(Êxtase - Cecília Meireles)


Como escrever os olhos dela? Por que começar a partir deles? Talvez eu só consiga responder essa pergunta se voltar para dois dias antes da Criação. Entender, de alguma forma, que cada letra, uma após a outra, é um meio de realização, um ente vivo, com vontade própria, tentando se libertar para um mundo desconhecido, cheio de medo, mas disposto a isso, ao tudo, a encarar face a face o Absoluto, o precipício da realidade, a condenação inevitável. Para responder a cada simples pergunta proferida por bocas inocentes, é necessário regressar aos estágios primevos, quando o Nada ainda era alguma coisa palpável e comunicava algo além do próprio silêncio de frade. Testar os limites de cada verbo no infinitivo, arriscar, forçar caminhos por florestas sem cor. Reconstruir o mundo à imagem e semelhança de Deus, reconstruir Deus, o Criador, a alma da Vida-em-si, fazer o percurso sem destino, com as inúmeras probabilidades de queda e derrota e morte. É preciso sentir a morte e a vida pulsando em cada segundo, isolado, estancado, infinito espiralado, a concha que guarda um pedacinho da verdade secreta e inimaginável mas sensível à flor da pele. É um mar para o qual se olha, um mar-espelho, mar-reflexo de forças intangíveis, fluidas, plasma condensando as tendências de dissociação e assimilação, os movimentos que geram a matéria, a luz, e o seu inverso, o avesso das vendas vãs, o ventre sóbrio da mãe ébria, os teus olhos. Que ocultam e revelam ao mesmo tempo muitas mensagens, mas os mensageiros foram mortos e elas estão à deriva. Não sou o homem de tato, de sensibilidade poética para captá-las e transformá-las num elo. Meus elos estão quebrados, as correntes e os laços, um andarilho perdido sem cavalo, de vistas tristes e corpo cansado, pois já vivi mil anos e minhas costas principiam a curvar sob o peso das almas que carrego, que não querem sair de mim, que se alimentam do meu espírito, e me renovam e se renovam, e juntos criamos novos espaços, novas dimensões, interstícios de realidades forasteiras. Não, não sou eu que vou, à maneira romântica de ver a vida, decifrar as mensagens dos teus olhos, e assim vamos nos amar e casar e sermos felizes para sempre. Não faz sentido pensar nisso, pois você não quer ser decifrada, é algo além disso, algo diferente das acepções comuns de todas as palavras. Mensagem, código, decifração, isso não tem referente no que os teus olhos transmitem, é preciso criar significados concretos, sensíveis ao tato e ao paladar, experimentáveis nos planos do corpo. São pássaros esvoaçando em céus surrealistas, em celas naturalistas, em mares barrocos. Mares revoltos, pulsantes de vontade, criados e criadores, vivos, vívidos, nítidos, intrépidos borrões rápidos e sucessivos, ferozes, expansivos, tempestuosos, sobrenaturais, sobre-humanos. Isso, isso tudo, como dizer que são seus olhos, impressões e expressões, avalanches de nuvens, formas siderais, cósmicas, meu sentimento, meus sentimentos, coração disparado, corpo estático, corpo-balão, aço frágil, renascendo a todo momento, reinventando os sentidos, o ouvir, o tocar, o cheirar, o saborear, o ver, o falar, todas as palavras desmanchando em formas de algodão doce, iridescentes, evanescentes, espumas-sereias das ondas do mar, e então firmes, sólidas, pétreas, fortes, resistentes, a rocha basilar do fiat lux! Teus olhos, como escrevê-los se todas as metáforas se tornam piadas ridículas perto deles? Constelações? Sóis? Buracos negros? O que são, o que parecem? É ridículo, irrisório, sem sentido, mas eles são o nome do que desperta em mim sempre que os olho, me torno janela, espelho, pálida superfície das águas, qualquer coisa opaca-transparente que tente se aproximar o máximo possível deste verso aberto que são eles, os teus olhos. 

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