sábado, 11 de julho de 2015

Orvalhos transeuntes



Um olhar de sonho. Devaneios meio vaporosos. Bruma leitosa, condensada e etérea, lampejante, mas escura, muito escura. Pingos de tinta mais ou menos uniformes no meio de telas em branco, salpicadas por vieses rubros. Pingos de tinta escura, tão negra e lustrosa. Mancham tudo o que tocam irreparavelmente. São fixos, fluxos, fluidos arbitrários flutuando em bolhas d’água prestes a romper.
Dois olhos sonolentos, cercados por delgadas rugas arroxeadas, semicerrados, pulsantes de vermelhos. Doem, o mero piscar dói. Tudo dói e a vista é embaçada. Precisa das suas lentes para se focar em algo, abstrata e concretamente. As coisas ficam tão difusas quando não está com os seus óculos! Precisa apertar os olhos pra diferenciar os rostos. Aperta tanto que quase os fecha. Lacrimeja e as gotinhas rolam pelas bochechas acidentadas de erupções cutâneas até fazerem a volta da face e se desprenderem rapidamente. Não sei se chegam ao chão. Não sabe se estão acordados ou adormecidos. Tenta arregalá-los mas isso não funciona, a dúvida permanece. E, principalmente, o peso daquele olhar continua aumentando. Hipnótico. Perseguidor. Violento.
Dois olhos fechados, dormindo, sonhando. Tentando sonhar um mundo onde eles enxerguem um pouco além. Só um pouquinho. O suficiente pra ver se há uma esperança, uma nova perspectiva. É muito o esforço e talvez eles não consigam. Contraem-se, apertam-se e abrem-se. Veem o mesmo plano, a mesma realidade. Não é uma surpresa. Mas a sua mente vê outra coisa, ela vê aquele olhar de antes, fixo, fixado nas imagens, recordações recortadas e entrecortadas com memórias desconhecidas. Seria possível ela enxergar outra coisa? Sim, perfeitamente, e aí está o componente trágico, o elemento masoquista. De tantas coisas a serem vistas e pensadas, logo essa. Não é uma surpresa, infelizmente, mas também seria infeliz se fosse.
Sentem-se abafados, presos, e se libertam dos cobertores, aspirando sofregamente o ar da manhã, o ar sufocante, tóxico, mortal. E os olhos permanecem lá, eternos, etéreos, feéricos. Entre as sombras, sugerindo apenas. Pingos de tinta negros transbordando e crescendo. Inchados de não sei o quê. Não estouram, o que é mais assombroso.
Mas o dia está apenas começando, e com ele uma promessa de vida ou morte. Aonde quer que eu vá, levo você no olhar. Seria possível agir de tal maneira que qualquer um reconheceria o olhar de outro no seu próprio olhar? A sombra de um olhar além, aquém, através. O vestígio, o rumor, o rubor, as delineações.
Procura um espelho onde se ancorar e só encontra os fragmentos de uma vida perturbada. Não com a acepção puramente psicológica da palavra, mas com uma sutil, nem sempre lembrada. Quando uma pedra cai em um lago parado, as ondas formadas são perturbações na água. Quando o som sai da boca ele provoca perturbações invisíveis no ar. Perturbação como movimento, quebra de silêncio, de quietude. Duas pedras em dois lagos mortos, cansados. Perturbação. É o espelho, ofuscante, pelo brilho da manhã, pela enxurrada de uma vida sem dono, anárquica, que invade cada mínimo espaço e o obriga a viver. Não quer se ver no espelho, o mesmo rosto batido de dezenove anos. A mesma falta de, a mesma desilusão. Levar no olhar.
Carregar o sonho na vigília não é tão difícil. Basta piscar. Olhos como janelas da alma. Que alma buscar lá dentro? Existe um dentro? Não seriam os olhos a própria alma? Não. Simples assim e as coisas continuam caminhando. E os pés continuam se movendo em direção a. A vida continua vivendo. Por que a vida deve ser vivida e não viver? Quem vive a vida? Quem sonha a vida.
Sonhar acordado é o mesmo que acordar sonhado. Mentira. Talvez. A mentira do sonho pode ser a verdade da vigília. Mas tem a memória. Um vidro trincado que não deixa passar tudo limpidamente. Não sabemos a verdade do sonho. Eu não sei a verdade do sonho. Só os olhos. Porque é isso que importa, não é? Me diga que importa e eu vou acreditar. Sempre acredito. Quando era criança acreditava em tudo o que me diziam: chupa-cabras, aliens, fantasmas, bruxas, super-heróis, ninjas, quadrinhos, desenhos, deus, ciência, vida, morte. Bastava alguém dizer “é verdade” e eu acreditava. “Eu posso voar”, “eu tenho vinte mil brinquedos”, “no centro da terra tem dinossauros”, “dragões habitavam a região onde hoje é a China”.
Até hoje acredito. Nos dragões, nos aliens, nos dinossauros, na conspiração reptiliana, na farsa do 11 de setembro, no fim do mundo. E principalmente, nos sonhos. Os que me transportam e me fazem ver novamente, sentir novamente aquele calor. Não o físico, talvez o físico, mas um calor espiritual, na falta de termo melhor. Não sei alemão. O calor dos sonhos. Aqueles de padaria e os que a gente tem quando dorme. Aqueles que temos quando pensamos no futuro. Aqueles que inventamos para impressionar alguém. “Hoje eu sonhei que você batia de carro!”, “Quero ser engenheiro genético pra poder virar o Hulk”, “Sonhei que ficávamos deitados na grama, nos olhando, mas nunca te disse isso porque ia parecer que eu estava apaixonado por você.”
Um olhar de sonho. Olhares que se cruzam e vidas que passam pelos olhos. Reflexos em espelhos. Reflexões e refrações dos óculos. A vida é sonho, já dizia uma peça barroca. Viver é representar. Olhar é sonhar. Eu amo o verbo ser, em sua forma na terceira pessoa do singular do presente do indicativo. É. Isso é aquilo, e pronto. Olhar é sonhar. Eu sou tua e tu és meu, e nós é um (Uma aprendizagem...). Sonhar é olhar. E se perguntam como é o sonho dos cegos. Nunca perguntei para um, mas espero que eles não digam a ninguém. É só deles. Olhar não é ver. E eles sabem disso. Que levem para o túmulo! Não merecemos conhecer tal segredo.
Fecho os olhos e o que eu vejo são olhos me olhando. Não de verdade, mas não importa, pois é o que eu quero ver. É com o que eu quero sonhar. É o que eu quero levar para a vida. Esse olhar. É o que me tira da cama todo santo dia, e me faz sorrir sem motivo, assim de repente, como um olhar de surpresa. Basta fechar os olhos, basta piscar. Deixar que a vida viva.
Olhos apertados, cercados por olheiras delgadas, olhos míopes e enfraquecidos. Que doem, que latejam, que ardem, ardem muito. Só precisam encontrar outros olhos, melhores, mais bonitos, mais felizes. E Saram.


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