*Sugestão: Ler esse texto ao som de Comptine d’um autre été, de Yann Tiersen, até porque
foi ouvindo essa música que o escrevi.
Quem acha doce a terra natal ainda é um tenro principiante;
aquele para quem toda a terra é natal já é forte;
mas é perfeito aquele para quem o mundo inteiro é um lugar estrangeiro.
A alma tenra fixou seu amor num único ponto do mundo;
a pessoa forte estendeu seu amor a todos os lugares;
o homem perfeito extinguiu o seu.
Hugo de St. Victor, monge saxão do século XII, citado por Edward Said (em O outro pé da sereia, de Mia Couto)
Existe
em mim uma certa nostalgia de viver, um certo desejo de passado, não o meu, mas
outro. De outros, um passado que não conheci, não testemunhei. É como se eu
buscasse resgatar alguma coisa, algum tempo, que não sei.
Um
movimento não percebido, sutil, uma sugestão de olhar, de boca, um pensamento
qualquer. Sinto falta de contar. Por isso reconto para mim o meu passado e o
transformo. Se torna alheio, algum não-meu passado, um presente. Mas, talvez,
temo por isso, esse passado seja inexistente e, portanto, futuro. Na solidão,
contar para si é o mesmo que ser dois. Se recontar é o mesmo que não contar,
mas imaginar.
Cores,
formas, sensações. A memória retém sensações. Tempos que deixei pra trás sem
vivê-los, sem vê-los, como novelos nunca tocados, escondidos, subterrâneos,
subvividos. Viver no infra. Não é o mesmo que viver no inferno. Nem não viver.
Assim, viver;
Nostalgia:
1. Melancolia profunda causada pelo afastamento da terra natal; 5. Estado de
tristeza sem causa aparente. Será que são tão distantes assim, dicionário? Onde
fica a minha terra natal? Onde fica a minha terra? Há terra? A terra é longe e
sentir sua falta não é uma causa para a melancolia profunda.
A
terra é longe. Entre mim e a terra existem umas quantas saudades. Só posso
contar uma vida de perto e sem lacunas, mas pensamentos. Sorrir, é uma
palavra-chave, mas não serve como palavra, nem como memória.
Não,
não preciso contar. Fica a nostalgia. A sobra e o resto de açúcar no fundo da
xícara, depois do café. É para onde olho e o que me olha de volta parece estar
em outro lugar. Viver, às vezes, parece ser um estar em outro lugar. É o
movimento. A vinda, a vida, só de ida, não dá. A volta soa como uma corrente que
solta e ecoa, para ceder espaço ao som. Preencher as falhas numa história sem
falhas, o sentido de contar. Nostalgia de viver, de passado, de futuro, de
agarrar com força e não largar por dois minutos ou mais.
O
abraço. Só serve quando há vontade em ambas as partes. Na solidão, o abraço são
só braços apertados, quentes e pela metade. Quentes porque ardem, não aquecem.
Abraçar o vazio é quase o mesmo que contar. Mas só podemos contar algo pra
outro. Aí surge o novo. Para ser contado no futuro e recontado, reinventado.
Podemos nos autoabraçar e fingir que está tudo bem. É uma possibilidade. Mas
fica a nostalgia.
Nostalgia
parece nome de remédio, embora não cure. Talvez cure. Talvez ninguém receite
por ser um remédio sem gosto, sem graça, sem nada, porque é falta. Nostalgia é
o oposto de arritmia. E diferente de melancolia. Parente da saudade e inimiga do
esquecimento. É como aquela onda que não passa dos joelhos, mas te empurra um
pouquinho pra trás. De leve, e você sente a espuma nos pés e tenta pegá-la, mas
quando vê, já foi.
Já
foi, já fomos espuma. Já fomos bolhas, já fomos brilho de mar e sol. Agora é
areia molhada. Apenas o vestígio, alguma alga. A nostalgia é como um véu de
espumas, que vem e escapa, escorre. E a nostalgia de viver? E a incerta
nostalgia de viver? Só os mortos sentem, mas os mortos não podem sentir, são
proibidos. Nostalgia de viver é paradoxo. Assim como ausência de terra natal.
Terra fatal. A terra que come e não devolve, pelo menos não inteiramente. A
terra encharcada de sangue e lágrimas e papel amassado. A terra que recebe
inocentes e culpados, mais inocentes que culpados.
Não
posso chorar, do mesmo modo que os mortos não podem sentir. Chorar só serve
enquanto comunicação de algo e na solidão a única comunicação possível é com o
seu outro. Se dividir em dois, três, pra não ser apenas mais um. É como rezar.
Fechar
os olhos e tentar ver o espaço. É noite. A lua, as estrelas, os planetas, o
espaço. É tentar ver o espaço. O ar, a poeira, a neblina. Suspender de repente
a respiração e ficar assim por um minuto. Depois soltar aos poucos e sentir o
pulmão esvaziando, o corpo esvaziando, mas tomar cuidado para que ele não
esvazie todo, senão fica difícil encher e acabam entrando coisas que não
deveriam, como pedaços de palavras, pedaços de gritos, pedaços de alguma coisa
sem memória. Uma lembrancinha de cartão postal. Carregar consigo um medo de
largar o vício.
Se
manter sempre na corda entre o início e o precipício. Como um palhaço segurando
um guarda-chuva, mas sem a chuva, apenas a lona-balão do circo. A
lona-luz-balão de um circo voador. Inflado por cantos, risadas e respirações.
Nostalgia de algo que não existe, de algo apenas em palavras, preso nas curvas
de um S. É como rezar.
Parece
fácil, mas é difícil, um belo dia você vai ter que aprender. Ter, precisar,
necessitar. Você tem que. Tenho que? Tem que. Então vou que. Fazer o quê, é a
vida. As coisas pendem de um grande relógio que derrete aos poucos, como
naquela pintura do Dalí. Mas eu não conheço o Dalí, só finjo que. Nostalgia de
aprender, por curiosidade. Saudade de uma época quando não conhecia nada. Tinha
a vontade. Um desejo de. Conhecer, um milagre, talvez o único milagre.
Inexplicável, inenarrável, ridículo (no limiar entre o segundo e o terceiro
sentidos do dicionário). Tipo quando você chega ao final de um livro muito bom
e quer apagar tudo da mente apenas pra ler de novo e se encantar. Como se fosse
a primeira vez. A primeira vez a gente nunca esquece. Esquece sim. Mas fica a
nostalgia. E nem sei mais em qual sentido do dicionário estou usando essa
palavra. É como rezar.

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