quinta-feira, 2 de julho de 2015

Todas as linhas passam por aqui



Degrau. Degrau. Tropeço. Degrau. Desorientação. O som rangido-metálico da roleta e o clac final. Mão em direção ao bolso. Mão fora do bolso. Desorientação. Sentar.
Estou cansado. Me ajeito no banco como um vampiro se ajeita no caixão. Coloco a mochila em cima do peito e cruzo os braços sobre ela. Estico as pernas e fecho os olhos, não sem antes dar uma última olhada para a rua. O dia está nublado. Ótimo, sem sol batendo no rosto. Agora sim, fecho os olhos, que ficam meio trêmulos, como se quisessem abrir novamente, e sinto o motor trabalhando e o chacoalho comum do meu berço provisório. Não adormeço completamente, não consigo adormecer completamente. Meus olhos estão fechados, mas sinto os espectros humanos se moverem ao lado, as pessoas que sobem, as pessoas que descem, as pessoas que sentam, as que se levantam. Ouço as conversas paralelas, as reclamações e as respirações como um único pulmão respirando no ritmo no trânsito tóxico. Está nublado, mas o calor é sufocante, me sinto numa estufa. O suor escorre pela perna, gota a gota, debaixo do jeans, por cima da pele, fazendo seu caminho entre os pelos. Meus pés estão quentes e meus joelhos rangem, como se estivessem enferrujados, inutilizados.
Num lapso tudo se apaga e desperto num quase sobressalto. Devo ter andado alguns quilômetros só. Tiro os fones da mochila e coloco o celular pra tocar alguma coisa. Olho em volta e vejo que a razão para o meu calor pode estar na quantidade de passageiros. Muitos, mais do que deveria. Por isso a lentidão também. Vejo que os meus planos para o fim da tarde e noite serão frustrados novamente. Como foram ontem, e anteontem e antes de anteontem. Aumento o volume da música. O ônibus está chacoalhando absurdamente alto.
O celular adverte que ouvir música com volume muito alto pode prejudicar a audição. Não sei se rio da inusitada ironia. Provavelmente já estou surdo e só escuto ecos de lembranças. Até as músicas parecem memórias atualizadas. Talvez eu realmente quisesse estar surdo. A pessoa do meu lado é uma senhora de talvez quarenta anos com várias bolsas de mercado. Não é a mesma de meia hora atrás. Quantas pessoas já devem ter passado por mim durante apenas essa viagem? Quantas devem ter passado durante toda a minha vida enquanto passageiro de transporte público?
Estico as pernas e sinto os músculos quase se rompendo. Preciso voltar a me exercitar, senão vou ter varizes horríveis na velhice e mal vou conseguir andar. Tudo aqui é muito apertado. Tão apertado que nos fundimos num bloco de metal e carne, de couro e plástico, de borracha e diesel. Um conjunto de células perdidas vagando para um destino comum. Algumas ficam pelo caminho, outras entram no meio e sempre tem aquelas que vão até o fim.  Eu me sinto apertado. E não é só por causa da mulher ao meu lado, que é gorda, alta e com as sacolas ocupando quase todo o chão debaixo dos meus pés. É mais como se eu estivesse perdendo espaço, no meu próprio corpo. O corpo físico, esse corpo que tenho, sendo pressionado, imprensado, perdendo sua liberdade, seus movimentos. Não é um processo brusco, mas lento, gradual, a passos curtos, porém firmes, obstinados. E esse mesmo processo começa a se estender para a minha mente, uma mente cada vez mais reduzida, limitada, espremida.
Depois de dois anos pegando ônibus diariamente, cheguei à conclusão de que não há espaço para a poesia aqui, em qualquer transporte público. Não há espaço para qualquer tipo de pensamento aqui. Só há espaço para o torpor. A falta de sensibilidade. A falta de sentimento. Olho para as pessoas à minha volta e, salvo raras exceções, estão todos com o mesmo semblante. Não expressam tristeza, nem raiva, nem euforia. Não demonstram nenhum sentimento nomeável. É como se estivessem desligados, desconectados, alheios ao mundo externo. Agem por instinto, por um impulso não explicável por nenhuma das ciências naturais ou humanas. Mexem nos celulares, conversam com amigos, parentes, conhecidos, leem, dormem. Nada disso é feito da maneira como fazemos lá fora. Especialmente o sono.
O sono do ônibus não é parecido com nenhum outro tipo de sono. É aquele sono subcutâneo, subhumano, subsono. Não se dorme realmente no ônibus. Fecham-se os olhos, os sentidos se confundem e a mente deixa de registrar as memórias. Mas isso não é sono. Estou dopado, letárgico, lobotomizado. O asfalto, a janela, as formas se dissolvendo na velocidade, cada vez maior na estrada vazia, as pessoas que ficaram na pista, abandonadas pelo motorista que não pensa nos problemas alheios. Os xingamentos que vêm como bombas e se afastam como restos mastigados de vômito. O toque da cigarra, a tensão diante da possibilidade do motorista não parar no ponto desejado, as reclamações, a revolta contida, diluída no cansaço extenuante. Estou entorpecido, como se vivesse a mesma cena repetidamente, como se estivesse preso num ciclo como aquelas rodinhas para hamster. Como as rodas do ônibus. Girando e girando sem uma perspectiva de parar.
Agora sobe o camelô, vendendo as suas balas, os seus chocolates, os seus amendoins. Quando todo mundo se faz de surdo aos seus apelos comerciais, quando todo o seu marketing falha, fico tentado a comprar alguma coisa com ele, só para que as suas tentativas não sejam vãs. Mas não compro. Não sei por que, mas não compro. Simples assim. Penso mais em mim, meu egoísmo, minha mesquinhez se torna mais forte e não compro. Vejo ele descendo pela porta de trás, não abatido, não diminuído, mas disposto, resistente, invulnerável, pronto para mais um round em outro ônibus, com outras pessoas, outros eus que são tentados a comprar mas não fazem e olham para janela, se fingem cegos e surdos, simulam sono, distração, são insensíveis.
Chega um momento em que acabo comparando a atual viagem com todas as outras que fiz até agora. Algumas foram piores, outras foram melhores, talvez a minha memória romantize as melhores e as faça parecer quase etéreas. Mas sempre chego à conclusão de que todas são ruins e o fato de uma ser menos ruim que a outra não a torna boa. Não, não adianta me enganar, ser otimista e tentar ver pelo lado bom. Não adianta, porque a força contrária é visível, esmagadora, gruda na sua pele, te oprime, te rebaixa, te joga no chão e te espanca até você não aguentar mais. Essa força é como a gravidade, quase tão natural quanto ela, tão inescapável quanto ela.
Mas volto à questão: no ônibus há espaço para a poesia? Uma poesia sufocada, estrangulada, asfixiada. Talvez não haja espaço para uma poesia rígida, sólida, pétrea, uma poesia pesada, densa. Talvez a poesia feita no ônibus seja líquida, vaporosa, gasosa, inexistente. Talvez essa poesia, sendo não-poesia, antipoesia, seja a única que consegue sobreviver aqui, a única forma de vida a brotar aqui. Mas, como fazê-la? Como encontrá-la? Como procurá-la? Como saber que isso, essa coisa sem forma, sem nome, pode ser chamada de poesia? Se não o for, será o quê?
Sinto que estamos deslizando, derrapando sobre um asfalto de gelo, cada vez mais fino, cada vez mais arriscado. Todas as curvas oferecem uma ameaça real de morte, assim como as retas, os viadutos, as estradas, os outros veículos, tudo é decidido em segundos, centésimos, milésimos de segundos. Deus joga uma moeda para o alto e decide o meu destino. Cara eu vivo, coroa eu morro. Em todo segundo, em todo milésimo de milésimo de segundo, há uma moeda sendo lançada e a minha vida decidida. Por enquanto só tem dado cara, por dezenove anos seguidos, mas as chances estão contra mim, estão sempre contra mim, contra nós. Mas, se em cada mínima medida de tempo há uma moeda no ar, então ela jamais cai definitivamente, ou cai numa velocidade absurdamente grande, sendo arremessada logo em seguida. Não acho que seja esse o caso. Minha vida, o seu destino, está sempre no ar, sempre girando, sem saber pra qual lado vai cair. Esta é a indecisão. Mas no final sempre dá coroa.
Estamos derrapando em gelo fino, à deriva, desgovernados e descontrolados. Pode ser que a gente nunca bata em nada, assim como podemos nos chocar com um poste daqui a dois segundos. Tenho medo pela minha vida. Mas não posso parar de vivê-la nem um mísero segundo. Talvez isso tenha algo de poético e trágico. A poesia grávida da tragédia, ou melhor, da catástrofe. Não, nada a ver. Acho que delirei demais agora. Uma poesia que se esgueira pelas frestas e chega aos ouvidos desavisados e lhes sussurra mensagens de morte. Estes, por sua vez, carregam essas mensagens até suas casas e as espalham sem saber, como vetores de um vírus mortal, que permanece latente e assim será até o dia do Juízo, quando toda a poesia dormente em toda vida humana se revelará e nos dizimará a todos de uma só vez. Não, isso também não. Talvez eu tenha de lidar com o fato de que realmente não há poesia no ônibus, nem nada parecido. A mulher das sacolas já foi embora, um cara dormindo está do meu lado agora.
Olho bem para esse rosto adormecido, me parece bonito. Não da beleza que a gente está acostumado a não nomear, mas uma beleza que provém do cansaço. Ele está profundamente cansado, posso ver isso. Todos estamos. Todos os setenta e oito passageiros nesse coletivo que atravessa metade da cidade, carregando milhares de vidas completamente díspares e as amalgamando numa única feição, a do cansaço. Nossa base, nosso berço e nosso destino. Ele carrega consigo uma beleza intransferível e inviolável, assim como a mulher das sacolas e a estudante à minha frente e os garotos ouvindo funk no fundo e rindo. Somos tão diferentes que é impossível pensar em algo que nos seja comum. Isso é belo, com certeza. Mas não é poesia. Não pode sê-la.
É aqui onde eu salto. Degrau. Degrau. Sem tropeço. Degrau. Desorientação. Mas está lá o outro ônibus parado, o segundo que eu preciso pegar, e, daqui, me vejo correndo, torcendo para ele não arrancar sem mim.


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