quinta-feira, 23 de julho de 2015

Asa Bailarina


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
(Motivo - Cecília Meireles)

Quando via o CD rodando dentro do rádio que a gente tinha há um tempo, não pensava em nada, mas gostava de ver. Era legal como ele girava e girava, tão rápido. Hoje não vejo mais os CD’s rodando, mas penso que são como bailarinas em alguma apresentação no teatro. Nunca vi, mas acho que sim.
Aliás, a palavra bailarina não me sugere rodopios no ar, nem giros, só uma delicadeza rítmica, um farfalhar de tecido quando a língua toca no céu da boca pra sair o L e o estridente “rina” que fecha o movimento, veloz e perfeito. Decidido. Baile, baila, bailarina. Caixinha de música e ela lá rodando, como uma baiana de escola de samba, com a mãozinha no alto, a outra na cintura os olhos fechados, rodando.
Peça que envolve o pavio de determinado tipo de lampião a querosene; camisa de incandescência. Bailarina incandescente. Brilhante. Bailarina fênix. Como o dicionário pode nos ensinar coisas! Do latim, baillare. Dançarina profissional. Dançar, dança. Se movimentar, no espaço, no tempo. Cruzar o ar com alguma pirueta fatal, impossível, e aterrissar como se fosse a coisa mais simples. Beleza, leveza. Os pés de uma bailarina. A graça, a vida, a delicadeza, ocultas por umas sapatilhas e meias. Os pés. A harmonia, a alegria, a tudo. Tuda. Bailar. Valsar.
A bailarina-cisne, a bailarina-cisne-negro, a bailarina-fênix, a bailarina que voa. Asa bailarina. Lamparina. Lâmpada-bailarina. Que ilumina. Que me ilumina. Bailar. Dar saltos e saltar sobre.
Um salto sobre o que você quiser. As pernas fraquejam? O público é ávido, como todos ávidos são os públicos, como todos públicos são os ávidos. Ávido à vida. Há vida debaixo da bailarina. Debaixo da saia que rodopia. Semideusa. Deusa. Ninfa de bosques que não existem. Ninfa de concreto. Bailarina do asfalto.
A bonequinha que gira na caixa de música, que guarda bijuterias. Mamãe é pobre, a caixinha também. A música é de Beethoven. Für Elise. A mesma música do carro do gás. Acho que é sim. A vida passa pelo carro do gás. E ele passa pelas nossas vidas. A menos que a gente use o gás encanado. Beethoven encanado. Ressoando pelas tubulações do Rio de Janeiro. Deixaria essa cidade feia um pouco mais bonita. Não porque é Beethoven, mas porque Beethoven é. E nem sei nada de música. Mas queria compor alguma pra alguma Elise. Ficam só o desejo e a vontade, e Beethoven. Ainda bem que ele compôs essa, porque se dependesse de mim... tão mais fácil usar a beleza de outra obra pra aumentar a sua própria.
Bailarinas no céu, nos morros, nas casas, deixaria essa cidade feia um pouco mais bonita. Asas de bailarinas. Foram-lhes concedidas por Deus. Assim como aos anjos. Mas anjos só tocam nas liras e protegem as pessoas. Bailaliras.
Bailarimas. Poesia é rima, mas poesia também pode ser outra coisa. Não sou o dono da verdade, e por isso posso roubá-la. Só às vezes. Bailaretas. Poetas bailando no mar. Mas a vida nem é isso.
A vida tá tão cheia de pontos finais que acho melhor só usar vírgulas daqui por diante, porque vírgulas unem, apesar de parecer que separam, elas unem na verdade, são como cimento, mas agem melhor do que cimento, porque cimento é concreto e pode pesar, mas as vírgulas quase não pesam, são uma coisinha assim e, pronto, já foram, já são, vírgulas,
Brincadeira, não sei se a vida tá cheia de pontos finais, falo assim por falar, mas não sei, bailabrinca na vida, bailobrinco com a vida; vai lá brincar com a vida; Vai lá bailar, bailarina; dance não porque mandaram, mas porque você pode, dançar é revolução,
Assim como revolução também tem sentido de girar, rodopiar; retorno periódico de um corpo astral a um ponto da própria órbita; volta completa, giro, rotação, e foi o dicionário que disse, diz-cionário; rodar como roda a baiana, como roda o palito na máquina de fazer algodão doce, como rodam os furacões, como rodam os girassóis;

Revoluciona, bailarina, bailalivre

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