domingo, 26 de julho de 2015

Sísifo


“O espelho só me ensina a ruína do desejo
Sei que é meu esse olhar onde eu não mais me vejo”
(Antônio Carlos Secchin)

Pela janela do ônibus eu vejo
Todas as versões melhores de mim mesmo
Da janela do ônibus eu olho aqueles olhos
Espelhos do vidro fosco e seco

Da janela do ônibus eu me vejo,
Este monstruário azedo que (me en)torno
À mostra o animal exótico em que me transformo
Exótico pelo inexorável vitral da janela, que me olha

[Do pó ao pó e do pó à porra]

Os ciclos revolucionários das rodas desfilam
Pela língua infinita das ruas asfaltadas
E os olhos dos bueiros que me observam
Mostram versões melhoradas de mim mesmo

[Da porra ao pó e do pó ao podre]

As forças me puxam e refletem ao redor o meu fracasso
Os pacientageiros conversam, mas não sobre mim
As máquinas bombeiam sangue radioativo para combustível
E os sons metálicos convergem sinfônicos, mas não sobre mim

As sobras dos meus restos eu recolho pelos lixos
Os fuzis apontam inglórias justiças

[Do podre à porra e da porra ao porre]

E as garrafas quebram uma a uma os meus brilhos
Dos meus olhos pretos e amaçados
Amarrados à janela do ônibus
E o meu indesejo que apita trinante
Desmorona de-graus abaixo para se unir

Às versões melhores de mim mesmo 

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