“O
espelho só me ensina a ruína do desejo
Sei
que é meu esse olhar onde eu não mais me vejo”
(Antônio
Carlos Secchin)
Pela janela do ônibus eu vejo
Todas as versões melhores de mim mesmo
Da janela do ônibus eu olho aqueles
olhos
Espelhos do vidro fosco e seco
Da janela do ônibus eu me vejo,
Este monstruário azedo que (me en)torno
À mostra o animal exótico em que me
transformo
Exótico pelo inexorável vitral da
janela, que me olha
[Do pó ao pó e do pó à porra]
Os ciclos revolucionários das rodas
desfilam
Pela língua infinita das ruas asfaltadas
E os olhos dos bueiros que me observam
Mostram versões melhoradas de mim mesmo
[Da porra ao pó e do pó ao podre]
As forças me puxam e refletem ao redor o
meu fracasso
Os pacientageiros conversam, mas não
sobre mim
As máquinas bombeiam sangue radioativo
para combustível
E os sons metálicos convergem
sinfônicos, mas não sobre mim
As sobras dos meus restos eu recolho
pelos lixos
Os fuzis apontam inglórias justiças
[Do podre à porra e da porra ao porre]
E as garrafas quebram uma a uma os meus
brilhos
Dos meus olhos pretos e amaçados
Amarrados à janela do ônibus
E o meu indesejo que apita trinante
Desmorona de-graus abaixo para se unir
Às versões melhores de mim mesmo

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