O
calor dos teus braços
Eu
procuro desesperado
As
sombras dos destroços
Onde
se alojaram.
O
calor dos teus braços
Eu
sigo em vão no escuro
Cambaleante
e bêbado
A
vista, o ouvido, o sabor surdo.
A
superfície dos teus braços
Eu
almejo enquanto afundo
Vendo
o meu corpo afogado
Querer
alcançar seus olhos turvos.
Me
visto de movimento
Corro
por cima das pedras
As
brilhantes que você deixou
Para
eu não me perder nas trevas.
No
teu corpo está escrito
O
receituário pro suicídio
E
quero ver nas entrelinhas
O seu arsênico sorriso.
E
no meu corpo está escrita
A
carta dos assassinatos
Os
crimes inconfessáveis
Que nos tornam culpados.
Nos
passos da dança macabra
Onde
nossos pés se confundem
Multiplicam-se
minhas promessas
Pra
que nossas almas não afundem.
Inútil
esforço, eu sei, eu sei
Estamos
marcados na fronte
Desde
o princípio do amor e ódio
Irreconciliáveis laços perdidos no Monte.
No
Monte das últimas preces
Ficam
deixadas nossas orações
Pra
que a esperança não morra
Em
meio aos mares e trovões.
Quando
me vejo novamente
Estamos
enlaçados dançando
E
meu coração já não reconheço
Onde
está, em qual plano.
Entre
nossas bocas há um vácuo
Assimétrico,
violento, fatal
E
assim é impossível o beijo
Que
me salvará do juízo final.
Que
me salvará da chuva
Não
a ácida das velhas metrópoles
A
serena que dá resfriado
curada
com antigos xaropes.
O
aspecto fugidio das palavras
Sebosas,
oleosas e gordurosas
Escorre
entre minhas duas mãos
E
se espatifa em poça tóxica.
O
declínio imprevisível da lua
Anuncia
o sono da madrugada
E
o despertar de nossos corpos
Para
a infértil vida terráquea.
Cada
estrela que morre
Conta
dez milhões de sonhos findos
Se
condensando lentamente
Como
asas de anjos caindo.
Num
solo estéril de beleza
Cresce
apenas a flor do caos
Frágil
e feia e desgraçada
Cercada
somente de sonhos maus.
É
nesse solo que nós morremos
Servimos
de adubo à violência
O
nosso único sangue rubro
Presentifica
nossa ausência.
O
nosso único sangue rubro
Pisado
pela dança última
Encharca
a terra do que foi vida
A
nossa vida, tenra e bruta.
Os
dois corpos esfacelados
Eviscerados,
destroçados, obliterados
Somos
nós, amantes desditosos
Duas
massas de carne amontoada.
Vai
se esvaindo pouco a pouco
Nas brasas
do derradeiro verso
Que
fixamos nesse mundo monstruoso
Buscando
o consolo de um deixar-se eterno.
Fomos
só carne, minha querida,
Suada,
lavrada, retorcida, marcada
Com
as letras do alfabeto antigo
Anterior
a qualquer fala.
É
isso o que somos, minha cara:
Relíquias
feéricas de uma árvore ancestral
Os
galhos tortos e sem frutos
A
seiva seca, profana e mortal.
É
isso o que seremos, meu anjo:
As
constelações vigilantes do cosmo
Retornando
ao espaço-não-tempo
E
novamente nos unindo ao fogo.

Bravo!
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