quarta-feira, 8 de julho de 2015

Deucalião e Pirra




O calor dos teus braços
Eu procuro desesperado
As sombras dos destroços
Onde se alojaram.

O calor dos teus braços
Eu sigo em vão no escuro
Cambaleante e bêbado
A vista, o ouvido, o sabor surdo.

A superfície dos teus braços
Eu almejo enquanto afundo
Vendo o meu corpo afogado
Querer alcançar seus olhos turvos.

Me visto de movimento
Corro por cima das pedras
As brilhantes que você deixou
Para eu não me perder nas trevas.

No teu corpo está escrito
O receituário pro suicídio
E quero ver nas entrelinhas
O seu arsênico sorriso.

E no meu corpo está escrita
A carta dos assassinatos
Os crimes inconfessáveis
Que nos tornam culpados.

Nos passos da dança macabra
Onde nossos pés se confundem
Multiplicam-se minhas promessas
Pra que nossas almas não afundem.

Inútil esforço, eu sei, eu sei
Estamos marcados na fronte
Desde o princípio do amor e ódio
Irreconciliáveis laços perdidos no Monte.

No Monte das últimas preces
Ficam deixadas nossas orações
Pra que a esperança não morra
Em meio aos mares e trovões.

Quando me vejo novamente
Estamos enlaçados dançando
E meu coração já não reconheço
Onde está, em qual plano.

Entre nossas bocas há um vácuo
Assimétrico, violento, fatal
E assim é impossível o beijo
Que me salvará do juízo final.

Que me salvará da chuva
Não a ácida das velhas metrópoles
A serena que dá resfriado
curada com antigos xaropes.

O aspecto fugidio das palavras
Sebosas, oleosas e gordurosas
Escorre entre minhas duas mãos
E se espatifa em poça tóxica.

O declínio imprevisível da lua
Anuncia o sono da madrugada
E o despertar de nossos corpos
Para a infértil vida terráquea.

Cada estrela que morre
Conta dez milhões de sonhos findos
Se condensando lentamente
Como asas de anjos caindo.

Num solo estéril de beleza
Cresce apenas a flor do caos
Frágil e feia e desgraçada
Cercada somente de sonhos maus.

É nesse solo que nós morremos
Servimos de adubo à violência
O nosso único sangue rubro
Presentifica nossa ausência.

O nosso único sangue rubro
Pisado pela dança última
Encharca a terra do que foi vida
A nossa vida, tenra e bruta.

Os dois corpos esfacelados
Eviscerados, destroçados, obliterados
Somos nós, amantes desditosos
Duas massas de carne amontoada.

Vai se esvaindo pouco a pouco
Nas brasas do derradeiro verso
Que fixamos nesse mundo monstruoso
Buscando o consolo de um deixar-se eterno.

Fomos só carne, minha querida,
Suada, lavrada, retorcida, marcada
Com as letras do alfabeto antigo
Anterior a qualquer fala.

É isso o que somos, minha cara:
Relíquias feéricas de uma árvore ancestral
Os galhos tortos e sem frutos
A seiva seca, profana e mortal.

É isso o que seremos, meu anjo:
As constelações vigilantes do cosmo
Retornando ao espaço-não-tempo
E novamente nos unindo ao fogo.






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